Sulfuricamente entre quadros


Concorrentes ao Oscar 2010

por Caroline Araújo

Cada enquadramento desnudado por uma lente de cinema, é muito mais do que apenas um posicionamento de câmera.  Com absoluta certeza essa é a essência que move o olhar lânguido e habilidoso de Claudia Llosa, jovem diretora peruana que teve sua película indicada ao Oscar deste ano na categoria de melhor filme estrangeiro. “ La teta Assustada – The Milk of Sorrow”(2009) é algo que ainda não encontrei uma palavra no vasto léxico para definir.

Impossível de colocar uma métrica fílmica. A tristeza sorumbática contada, é tamanha que somente o cântico infinitamente melancólico entoada por Fausta( Magaly Solier) durante toda a película pode exprimir algum sentimento ou sensação verossímil sobre a essência deste filme.

Trata-se de uma história de tristeza. Mas tão bela, tão sulfúrica que chega a ser incrédula. Trata-se de uma história de inocência. Uma inocência que é praticamente intangível na globalização atual. Trata-se de uma história de violência, aqui não explicita, mas das marcas profundas que durante décadas foram esculpidas nos seios sociais de um Peru tão divido por suas culturas, por sua heterogeneidade.

As matizes azuis, turquesas, cobaltos, claros, profundos, em meio ao mundão de areia, pobreza, terra, entulhos, exala uma calmaria melancólica que só é quebrada por pontuais explosões de carmim em pontos marcadíssimos dos enquadramentos. Tudo milimetricamente puxa o olhar do espectador, em uma sutil habilidade de compor cenicamente.

Parei o filme varias vezes e voltei para ter certeza disso. E qual foi minha feliz constatação, pois não temos um roteiro usual ou de fácil assimilação. Temos um roteiro denso, profundo, tal qual as sensações e aflições humanas que Claudia tenta passar na tela pelos olhos terrivelmente amendoados e perjuros de Fausta, nossa protagonista. Alias Fausta é a própria tristeza em carne e osso. Mas não algo negativo e sim, algo em transmutação.

Cheio de metáforas, e de pontuais “beliscões” sobre essas segregações existentes na sociedade peruana, e principalmente, temos uma carta aberta sobre todos os horrores sofridos pelas mulheres na s zonas rurais na década de 80 por conta das ações dos guerrilheiros. Em uma das cenas quase no final do filme, temos uma sala onde na parede tem uma pichação que diz:” Um Peru que Estuda é um Peru que Triunfa”. Lindo.

Competentíssimo nas atuações, competentíssimo na direção, não é a toa que ganhou vários prêmios desde sua estréia, Berlin, Veneza, gramado, e seria belíssimo e justo vencer a disputa do domingo próximo. Um filme feminino, dirigido por uma mulher que fala aos homens sobre os horrores de uma forma feminina sem ser piegas. Isso é apenas o inicio de uma grande assinatura cinematográfica. Viva o Cinema de Claudia Llosa.

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