A maior Pretensão do Mundo


Sessão Desrrecomendo – locadoras

por Juraez Cividini Jr*

Quando o astrofísico Antônio, interpretado por José Wilker, descobre que está doente, decide voltar ao Brasil para tentar esclarecer certas dúvidas sobre seu passado. Antônio, um senhor de cinqüenta e seis anos (levando-se em consideração que a história se passa hoje), vive seus dias, seu trabalho, de maneira tão sóbria quanto desesperada. A essa altura de sua existência é que tenta driblar sua biografia, tudo que o transformou naquela pessoa introspectiva e fria.

            O início de O Maior Amor do Mundo, do veterano Cacá Diegues, promete uma bonita história. Apenas promete. Existe uma sensibilidade muito presente no início da fita, que se torna muito intensa quando o protagonista se encontra com o pai, vivido por Sérgio Britto – aliás, as seqüências em que Wilker e Britto contracenam são as que mais valem à pena nos 110 minutos de filme.

            Contudo, essa sensibilidade, enquadrada sob um ângulo muito delicado, esvai-se nas cenas seguintes. O ar terno, mas angustiante, que o roteiro propõe, não acompanha o protagonista. A favela, o lixão, a pobreza que aparecem em seguida, por um lado expressam o que de mais conflitante se passa na cabeça (e na alma) de Antônio; por outro, como quesito estético, não se encaixaram com o tipo de abordagem idealizada. Quero deixar explícito aqui que não sou contra essa estética, muito pelo contrário. Até mesmo concordo com Diegues quando ele mesmo afirmou que a nova onda artística brasileira está se desenvolvendo nesses núcleos vorazes de produção de subjetividade.

                        Claro que outros filmes já comprovaram a expressividade existente nas paredes sujas dos barracos do subúrbio carioca, em seus habitantes, na compra e venda de droga. Todavia, a mixagem que o roteiro faz o enfraquece, e quando vemos a cena em que um traficante oferece a morte de um sujeito a outra pessoa, sentimos que já a vimos numa outra ocasião. Mesmo a interpretação de Wilker que poderia ter sido sublime é atingida pelos tiros que surgem, e uma das coisas que revelam sua incipiência são seus irritantes gemidos, proferidos até o final: seu sofrimento se reduz a isso.

            Outro fator que não se encaixou foi a trilha sonora – mas desta vez não em todos os momentos, até porque Chico Buarque é Chico Buarque. A música é boa, mas houve um excesso e uma mescla de gêneros extravagantemente díspares. Como alguém teve a coragem de colocar Chico e Pitty numa mesma fita? Bons filmes, muitas vezes não têm um ressoar de violinos, pianos, vozes. Se o mínimo fosse mantido já seria suficiente. Talvez, até mesmo se não houvesse um som que não o dos diálogos já ajudaria, porque, como disse, o início da fita propõe introspecção.

            Os outros elementos? A fotografia não traz, aparentemente, nada de novo, assim como o elenco de apoio, que aqui é só de apoio mesmo – embora eu tenha gostado da atuação de Sérgio Britto, como disse. A arte e o figurino estão no seu patamar mais útil.

            Enfim, a pretensão do texto, o qual se mostra muito interessante, transforma-se num desejo do espectador de ver Antônio em outro lugar, vivendo o mesmo conflito sob outra abordagem, cuja ampliação não se estendesse ao subúrbio apenas. E alguns, como eu, sentirão saudades de Lorde Cigano, projetado por Diegues mesmo, em Bye Bye Brazil.

 

*Estudante de medicina, cinéfilo assumido e ex- integrante do NPAV – 3 Tabelas da UFMT. Escrevia regularmente no periódico FANCINE

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