Quando a latitude histórica é segundo plano…

Opinão

por Caroline Araújo

Capão redondo. Local onde fama  e esquecimento andam juntos. Onde sonhos e destinos são separados ou, colhidos entre tantas histórias tristes salpicadas por parcas nuances de felicidades. Neste celeiro de pujança humana, de variadas elipses de emoções humanas do diretor Jefferson De discorre o cerne de seu primeiro longa metragem.

“Bróders” (2010) conta com um elenco de fazer inveja. Cássia Kiss, Ailton Graça, Caio Blat, Jonathan Haagensen, Sílvio Guindane entre outros. A trama roda ao redor de três amigos de infância – Macu perfeito esteriótico do jovem da periferia que flerta constantemente com a criminalidade, em uma interpretação inspiradora de Caio Blat. Jaiminho (Jonathan Haagensen), a pérola negra da comunidade. Jogar de futebol em ascenção que não esquece ou deixa suas origens do capão para trás. E Pibe ( Sílvio Guindane), malfadado corretor de imóveis, pai novo e sem nenhuma inspiração de amanhã, mesmo sendo um bom rapaz.

Cada qual vive suas desilusões, suas lutas pela sobrevivência e seus sonhos despedaçados ou realizados como é o caso de Jaiminho. Cada qual Vive dentro de si a turbulência do Capão redondo. Unidos pela amizade de infância, separados pelas escolhas individuais do presente de cada um, Jefferson De tenta traçar um caminho onde coloca amizade acima de tudo, acima de todos os interesses.

Com algumas ressalvas, acredito que o diretor fez um bom trabalho, porém poderia ser melhor. Caio Blat está muito bem e muito enfronhado em seu personagem que é difícil desconectá-lo de Macu. Já Jonathan está mediano na pele de Jaiminho. Sua interpretação lembra e muito um outro personagem seu Walace, também jogador de Futebol, que interpretou em um curta metragem do cineasta mato – grossense Bruno Bini. Contudo, diferente de Walace que tinha um tom cômico sutil, Jaiminho fica na vala comum das interpretações. Já Silvio Guindane com seu Pipe não diz para que veio e nem como vai embora.Personagem dinâmico sem dinâmica alguma.

Temos uma excelente fotografia, bem enquadrada, bem movimentada. Pontos positivos para a direção de arte que exala a dureza do capão. Um bom desenho de som é nos apresentado e temos uma montagem razoável que poderia ter sido mais ousada, até pelo fato de que a história em si permite isso. Mas temos uma direção equivocada.

A grande questão, a mordaz ação que Macu deve fazer e que tem Jaiminho no cerne da pergunta foi tão frouxa na amarração que não consegue exprimir na tela a real tensão que o diretor gostaria ou deveria passar. Credito isso a falta de experiência de De, ou quem sabe uma auto – confiança que deveria ter tido alguns consultores.

Mesmo assim, “Bróders” sai arrebatando alguns filmes em festivais por onde passa. Prova de que o Cinema brasileiro esta se rendendo não só à massacrante forma de distribuição ditada pelos americanos, mas também, ao lobby das produtoras e grandes conglomerados televisivos que andam atrás de certas produções. E assim o cinema independente brasileiro continua a girar suas calhas de roda.

 


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Quando a liberdade poética é bem aplicada

Opinião

Por Caroline Araújo

Experimentar. Ousar. Dois verbos comumente mencionados quando trata-se de referendar uma nova produção artística que se faz porta – bandeira de novos horizontes artísticos. Contudo, igualmente comum é a não ousadia e o não experimento feito por essas tão “ditas” novas artes.

Sexta passada, durante o 17º Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá – MT fui jogada avassaladoramente dentro de um turbilhão de ousadia experimental sem precedentes. Um jorro criativo de sensibilidade e poesia visual digno de grandes obras primas. Tinha acabado de contemplar uma sessão do longa metragem experimental feito por Marcelo Gomes (“Cinema, Aspirinas e Urubus”) e Karin Anoüz (“ Madame Satã” e “Céu de Suely”) e estava realmente tocada.

“ Viajo porque preciso, Volto porque te amo” (2009) é sem dúvida alguma um filme com alma, um filme com paixão, um filme com uma sensibilidade extrema. Não existe métrica. Esqueça .Existe instinto e uma grande vontade de escarafunchar os arcabouços das sensações humanas nos momentos de solidão; nos momentos onde o auto-conhecer se faz latente e urgente.

Nosso protagonista interpretado com tamanha voracidade verbal por Irhandir Santos, não precisa aparecer. Conseguimos captura toda sua angustia, amargor, desamor, solitude e paixão em suas andanças pelos cafundós ressequidos do sertão.

O filme foi feito com pedaços dos outros filmes dos diretores que não haviam sido utilizados, mesclando uma ficção documental de uma homem e sua própria busca por entender esse amor.

A utilização de montagens sobrepostas e a coloração de super 8 e 16 mm, intercalada com fotos muito belas acelerava e desacelerava o decorrer narrativo de uma maneira bem interessante. Temos na frente dos olhos uma aula de narrativa e de utilização de imagens. Direção bem delineada. Impossível entrever onde começa ficção e onde termina o documentário.

Marcelo e Karin fizeram bem. Muito bem. Absolutamente teremos pessoas que irão detestar justamente pelo o público ter a enxurrada diária do modelo enlatado de cinema. Mas o mérito deles é a ousadia em fazer um poema de amor ao outro e de amor próprio de uma forma, forte, intensa e livre. O titulo é tão forte quanto a construção textual que ele implode da mente do espectador. E o mais engraçado para mim, é que assisti-o logo após assistir o longa americano “Comer, rezar e amar” que trata exatemnte sobre o auto-conhecer. Diferente do americano, “ Viajo porque preciso, Volto porque te amo” não precisou de feitos, super astros e essa tralha toda para cumprir o que propõe e ir além até.

Isso é Cinema de verdade!