A “Preciosa” da vez.


Temporada Oscar 2011

Opinião

Por Caroline Araújo

Não temos uma paisagem agradável aos olhos. Uma espécie de apocalipse social que se passa no presente nos confins gélidos nas florestas do Missouri – EUA onde o frio dilacera as pessoas da mesma forma como os homens de lá são aguerridos ao instinto de sobrevivência.

Temos na tela a história de Ree Dolly. Uma garota de 17 ano que teve seu projeto de vida de servir ao exercito americano escanteado quando ao seu colo cai a responsabilidade de se tornar chefe de sua família. Sua mãe é invalida. Sofre de alguma doença mental. Seu pai, presidiário e fugitivo. Dois irmãos pequenos. Nenhum centavo no cofrinho. Apenas Frio.

Ree teve que crescer. E rápido. Da mesma forma que sua busca por noticias de seu pai, vivo ou morto precisa ser. Se não descobrir o paradeiro dele perde a casa em que mora com sua família esmigalhada e ai, a dignidade humana já deverá ter dado um até logo para ela.

Duro. Cru. Terrivelmente sujo. “Winter’s Bone – Inverno na Alma”(2010) da diretora estadunidense Debra Granik é baseado no livro de mesmo nome do escritor americano Daniel Woodrell e com a mesma letargia castigante, queima os olhos do espectador com a naturalidade cruel vivida pela solitária Ree.

O Filme de Debra me lembrou e muito o aclamado “Precious” de Lee Daniels. Digo isso porque, assim como Precious, Ree é mais uma entre tantas “preciosas” anônimas soterradas pelos acasos inexoravelmente injustos existente por ai, independente de etnia.

De certa forma, Ree é espancada. Espancada pela dureza e grandiosidade dos fatos que a cercam e que a levam a tomar as rédeas da sobrevivência familiar. Não existe piedade. Não para Ree. Cercada pela futilidade do uso de entorpecentes que parece ser algo totalmente normal na vizinhança, Ree corre contra o tempo, corre contra ela mesma.

Jennifer Lawrence interpreta Ree de uma forma intensa e simbionte. O não arrefecer perante as portas na cara, a postura sempre austera no semblante de menina traz nos olhos de Ree a inocência maculada que jamais verá novamente.

Debra foi extremamente feliz na direção seca e tortuosa que nos brinda. Soube conduzir Jennifer de forma primorosa. Além de conseguir extrair fotograficamente dos cenários naturais onde o filme passa um total vazio, um total congelamento de sentimentos humanos.

 O veterano John Hawkes que dá vida á Teardrop, tio de Ree e irmão de seu pai desaparecido, assim como Jennifer é o reflexo de uma sociedade vazia internamente e externamente.O grande ponto aqui é uma mostra, mesmo que fictícia do vazio e do estado de natureza selvagem na qual a sociedade atual encontra-se. Não existe um pacto social norteando aqui. Apenas a sobrevivência.

“ Winter’s Bone” foi o grande vencedor de Sundace, chega ao Oscar 2011 colecionando uma legião de críticas, indicações e premiações. Pode dar a jovem Jennifer o Oscar de melhor atriz, embora o pário esteja duríssimo. Concorre ainda aos Oscar de Melhor Filme, Melhor ator coadjuvante para John Hawkes e Melhor Roteiro Adaptado para Debra Granik e Anne Rosellini.

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