Com Vocês O antagonista: O Microfone!! God Save the King!


Temporada Oscar 2011

Em cartaz\ Opinião

por Caroline Araújo

Austero. Com um roteiro enxuto que permite o desenrolar da história com uma fluidez assombrosa, temos à frente um dueto antológico de dois grandes atores – um britânico e outro australiano – que, invariavelmente representam sem querer, o império e a colônia – numa leitura semiótica das entrelinhas dessa quase peça teatral que ganhou as lentes e o pulso sensível do diretor praticamente desconhecido Tom Hooper.

 

Elegante em sua essência e na composição do desenho proposto. Hooper executa um filme que cumpre habilmente o papel de repassar sua mensagem que é Conta a história justamente do pai da atual Rainha Elizabeth I (que é mostrada criança no filme), o relutante rei George VI (Colin Firth) que não foi preparado para ser rei porque tinha um irmão mais velho destinado ao cargo, que seria o Rei Eduardo VIII (Guy Pearce). E que num lance célebre e discutido durante décadas, largou tudo pela mulher que ama – apaixonou-se por uma certa Wallis Simpson, plebeia americana duas vezes divorciada que a Corte então não considerava adequada para ser rainha consorte.  Mas, no caminhar para que o então Duque de York torne-se rei, ele precisa passar por uma catarse que apenas um simples “solucionador” de problemas da fala, Lionel Logue (Geoffrey Rush) é capaz de colocar tão clara e incisivamente em sua frente. E ainda temos a Segunda Grande Guerra batendo à porta.

Como um monarca pode reger seu povo se não consegue falar para ele ou por ele¿ Esse é o ingrediente básico da receita servida por Tom. Bertie, como é conhecido pelos mais íntimos, é gago e não existe cristo que o faça solucionar essa humilhante constrangedora situação.

 

“The King’s Speech – O Discurso do Rei” (2010) dirigido por Tom Hooper e estrelado por Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter é um filme feito para ganhar prêmios. Cuidadosamente montado, perfeitamente fotografado em uma construção de narrativa onde a angustiante atuação de nosso protagonista Bertie é potencializada ao extremo pelos belos enquadramentos que extraem ao máximo a atmosfera cenográfica onde a história passa e intensifica o drama de certo ponto bobo, como um algoz terrível.

Colin Firth internaliza Sir Albert Frederick Arthur George – George VI – de uma forma magistral. Quase choramos com sua asfixiante necessidade de ser compreendido, porém, em sua total impotência em derrubar essa barreira e conseguir expressar-se habilmente.

 

Por sua vez, Rush dá luz a Lionel Logue de forma espetacular. Interpretações engajadas nas reações que ambas exercem uma sobre a outra de tal maneira, humana e comovente. É tão eloqüente o poder que este filme exerce que, semióticamente temos o império tentando sobrepujar sua colônia – as 12 indicações agraciadas ao filme ao Oscar 2011 – que por onde tem passado tem conseguido angariar um bom número de premiações. Ele é um bom filme? Sem sombra de dúvidas. Ele é a prova cabal de que é eterno o fascínio que a família real inglesa detém sobre seu povo, seja inglês , seja os colonizados por eles, como os Estados Unidos. Porém, é o melhor filme de 2010? Não. Mas é um filme feito para ganhar prêmios.

 

É um filme conservador, linear e nem um pouco inovador. É técnico e nesse quesito é fantástico. É um filme para atores, dois neste caso, e neles se coloca todo o arco dramático. Muito se especula desde que após as 12 indicação ao Oscar deste ano, levou ainda o premio do sindicato dos produtores dos EUA como melhor produção do ano e melhor direção para Tom Hooper, além de ter abocanhado 7 dos quatorze BAFTAS que concorria, inclusive de Melhor Filme e Melhor Filme britânico.

 

Entretanto, opino que, se existe justiça divina ou terrena ( e eu sou otimista nisso) ele não ganha. Porque¿ bem, uma película presenteada com o Oscar de Melhor Filme do ano deve ser uma película que nos surpreenda, que nos marque pela sua originalidade e arrojo artístico, que nos fique gravada na memória por muitos e bons anos. E isto é algo que “The King’s Speech” está muito longe de fazer, exatamente pelo seu conservadorismo. Mas isso é marca registrada dos trabalhos de Hooper. Basta conferir sua direção nas séries  Prime Suspect e John Adams.

The King’s Speech concorre as estatuetas douradas de Direção, Melhor Filme, Melhor Ator para Colin Firt, Melhor Ator Coadjuvante para Geoffrey Rush, Melhor Atriz Coadjuvante para Helena Bonham Carter, Melhor Fotografia para Danny Cohen, Montagem, Melhor trilha sonora, mixagem de som, Roteiro original, direção de arte e figurino. Estes dois últimos devo classificá-los como belíssimos projetos artísticos, com riqueza de detalhes e pluralidade de texturas.

 

Ainda não conferi os trabalhos de James Franco, Javier Barden que concorrem com Firth na categoria de melhor ator. Mas assim como Natalie Portman, a incorporação do personagem feito por ele é tamanha que sua atuação salta e torna-se brilhante. Sem contar que Firth bateu na trave no ano passado com sua indicação por A simple man quando Jeffrey Brigdes levou por Crazy Heart (Brigdes concorre esse ano por True Grit).

E Hooper ainda tem que fazer muito filme antes de ganhar um Oscar de direção. Nesse quesito Fincher, Aronovsky e o Clã Coen saem bem na frente. A colônia sobrepuja o império.

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