5 Dias de Agonia= 127 horas


Temporada Oscar 2011

por Caroline Araújo

Desesperador e claustrofóbico. Quem já leu o livro Between a Rock and a Hard Place, ou quem já viu o documentário na TV paga sobre a história de Aron Ralston sabe como o filme termina.

Temos um rapaz – Aron Ralston –  apaixonado por aventuras radicais que despenca por uma fenda em Canyonland, na imensidão do deserto do Parque Nacional de  Utah, e tem seu braço direito preso por uma “pedrona”. Sem comida, sem celular,mas, com uma filmadora e uma máquina fotográfica à tira colo. Absolutamente sozinho, e sem a mínima possibilidade de ser encontrado caso alguém dê por falta de sua pessoa, já que Aron fez questão de viajar sem contar para ninguém onde iria. Temos uma luta imóvel, solitária e desesperada pela sobrevivência. Temos a certeza da mortalidade, fato. Temos 5 dias – 127horas de pura agonia.

 

“127 hours – 127 horas” (2010) do oscarizado diretor britânico Danny Boyle (Slumdog Milionaire) é um beliscão, ou um tapa no espectador confortavelmente sentado em sua poltrona. O filme é baseado no livro de Ralston, é uma história real e é uma clausura se pararmos para pensar que a história transcorre numa maldita fenda de um canyon.

 

Acontece que Danny E-S-P-E-T-A-C-U-L-A-R-M-E-N-T-E coloca uma sonda diretamente em nossas memórias afetivas inundando o filme com os delírios e um balé visual de mensagens subliminares euforicamente montadas em seqüências gasosas que potencializam a angustia de contar os milésimos de segundo em meio ao silencio sulfúrico do deserto em questão.

Aron é um bom rapaz. Isso fica claro desde o começo. Descolado, prestativo, bonito, faz amizade fácil e rapidamente nos joga em seu universo pessoal de aventura. No inicio de sua super jornada encontra duas moças perdidas e as leva para um mergulho fantástico em uma galeria de águas cristalinas. Eis um dos planos mais belos da película. A imensidão azul turquesa desse lago escondido é algo belíssimo.

Exatamente por ser tão cool é que acontece o que aconteceu. A potencialização disso na semiótica de Boyle se dá com os “Max –planos” que ele desde o inicio, como os takes da torneira pingando, o mega close no canivete suíço que ele esquece no apartamento, a secretária eletrônica recebendo o recado deixado pela irmã entre outras sacadinhas ensaísta que o diretor nos dá preparando o caminho para o que virá depois.

Anthony Dod Mantle e Enrique Chediak. Gravem esses nomes. Anthony foi responsábel pela Fotografia de Slumdog Milionaire e Chediak é um Fotografo Equatoriano responsável pela direção de fotografia do filme brasileiro “Besouro”. Eles criaram fotografias incríveis. A saturação do azul em meio ao terracota das fendas e recorte do deserto de Utah são poesia! O plano do gavião que passa todos os dias ao mesmo horário num vôo solitário pelo azul cobalto claro é lindo!

Some à isso a Montagem perfeita do ponto de vista métrico – narrativo, acelerando e diminuindo o ritmo que  Jon Harris executa em sintonia simbionte com a trilha composta por A. R. Rahman que é languinar, pulsante e precisa. Rahman é um mago na composição sonora, vai no cerne dos sentimentos e sensações que assolam Aron nesse castigo e eleva ao máximo a angustia corrosiva que abocanha cada hora mais de sofrimento.

 

Depois desses elementos juntos chame Franco, James Franco. É verdadeira sua atuação. É pujante o sofrer das constatações que ele passa ao publico no decorrer das nuances que ele dá a Aron com o passar das horas.

Franco esta maduro. Forte. Seguro. Sua atuação é soberba. Intensa. Ele consegue segurar todas as pontas e não arrefece e isso é muito complicado de se fazer em um filme onde a câmera não desgruda do nosso ator nem para fazer xixi. Absoluto. É emocionante de ver como ele se entregou de corpo e alma a este projeto.

“127 hours” é um filme que faz sim você parar para pensar em vários pontos de sua vida. Em o que se dá ou não importância. No imediatismo. Nas coisas efêmeras que nos deixamos envolver. Nada disso vai ajudar, quando no veio da solitude total, a única coisa que te faz companhia é a própria respiração que escuta.

Boyle fez um belo filme. Sem sombra de dúvidas. Bom roteiro e bons elementos técnicos em consonância. A crítica mundial tem dado excelentes scores e muito se fala sobre a fatídica cena da mutilação do braço. E eu digo. Não é fácil de assistir. Porque¿ Porque ela é REAL.

Não é uma cena inventada para ganhar público. Ela A – C – O – N – T – E – C – E – U! Aron foi até o fundo de seu próprio labirinto para conseguir coragem suficiente para fazer o que era preciso, e o fez. Doloridamente. Quem em sã consciência neste momento acredita que faria o mesmo¿ falar que faria, muitos dizem. Fazer. São outros quinhentos.

“127 hours” esta concorrendo à 5 Oscars dia 27 agora. Melhor Filme, Melhor ator para James Franco, Melhor Roteiro adaptado para Danny Boyle; Simon Beaufoy, Melhor Trilha Sonora para A. R. Rahman, Melhor canção Original para A. R. Rahman, Rollo Armstrong e Dido (ela é estupenda!) e Melhor montagem para Jon Harris. Acho que deveria ter tido a menção a Fotografia que é uma plástica sem igual.

 

Em fim, fica um dos filmes mais intensos e reais. Não ganha o premio de melhor filme deste ano. Mas vale muito estar entre os 10 melhores. Arrisco os palpites aos prêmios técnicos de trilha sonora, canção e montagem que realmente são muito superiores aos outros concorrentes. E Fica a dica de que assistam, sem medo.

Ps: A filmagens foram feitas exatamente na mesma fenda que Aron teve a queda. A cena do amputamento do braço foi rodada apenas 1 vez com VÁRIAS câmeras ao mesmo tempo de diferentes angulações e a bela cena do lago foi a licensa poética do diretor. Tudo bem, Boyle pode né?!

Uma resposta para “5 Dias de Agonia= 127 horas

  1. Estou mega curiosa pra assistir! Confesso que não achei o livro muito legal… não me emocionou. Acho que foi porque eu não li, eu ouvi o livro. E posso garantir que o tal do Aaron não era um bom narrador… não tinha nada de emoção!! Great job, darling!!!

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