Quando òdio e amor andam juntos


Opinião – EU INDICO

por Caroline Araújo

Filmes sobre as nuances claustrofóbicas e esquizofrênicas do relacionamento familiar, seja a problemática principal paterna ou materna, temos em toneladas nas prateleiras. A diferença consiste no recorte certo, de tempo e espaço onde o foco coloca sua potencia.

A intensidade das palavras proferidas por Hubert(Xavier Dolan), numa auto biografia onde o dialogo mãe e filho inexiste, mesmo sendo detentor de um turbilhão de palavras que estão estagnadas a espera de libertação, é algo que ultrapassa a singeleza da pura sensação de desconcerto que o adolescente vivencia.

J’ai tué ma mère – Eu Matei minha Mãe” (2009) filme canadense escrito, dirigido e interpretado por Xaviel Dolan é um poema audiovisual contemporâneo sobre a tênue linha onde amor e ódio formam uma amalgama e que alimenta as relações familiares atuais.

Hubert frequenta o colegial e discute com a mãe no café da manhã, no carro, no jantar. No entanto, por mais que às vezes Hubert perca o controle e externe sua raiva e frustração de forma violenta, este não é um filme sobre ódio pela mãe. É evidente que Hubert ama Chantale(a bela Anne Dorval), sua mãe.. Se não houvesse amor, não haveria tamanha intensidade na raiva. Temos aqui um sentimento que não é unicamente benigno e está mais para aquele amor em busca de reconciliação de Fernando Pessoa, que pede “tempo para acertar nossas distâncias”.

A potencialidade que exala dos sentimentos de Hubert é assombrosa. Em vários pontos Chantale pode até vesti-se de cruela, mas sabemos que as suas atitudes são aguerridas do mais intenso amor maternal. A desconstrução familiar sofrida pela sociedade, e a reconstrução desta de variadas formas, não teve a mesma reconstrução interna nas pessoas gerando um abismo cada vez mais visível e contraditoriamente profundo no âmago social. Filhos com vários pais, e pais de filhos seus e dos outros, ou pais que simplesmente decidem não ter mais filhos… variantes dicotomias…Não se trata de sexualidade, drogas, violencia, tudo é apenas fio condutor para um arrefecer de sentimentos.

Eu Matei Minha Mãe recebeu o Prêmio Internacional do Júri na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo,  o Prix SACD, o Prix Regards Jeune, o Art Cinema Award (estes três no Festival de Cannes – Quinzena de Realizadores – e o Prêmio da crítica no Palm Springs Internacional Film Festival, além de representar o Canadá na disputa do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2010.

Apesar da precocidade, Dolan escreveu este roteiro quando tinha 16 anos e realizou o filme aos 20 anos, a verve que se extrai da película em si é madura. Extremamente madura. Com uma mistura fotografia interessante, que brinca exatamente com o tom documental, aliado a boas escolhas de direção e uma delicada trilha sonora que permeia todo o desenrolar “J’ai Tué Ma Mère” nos leva a vários desdobramentos filosóficos. E fecha com a cereja do bolo em um final mais intenso, e singularmente poético.

Palmas para Dolan!

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