As luzes solitarias de Coppola


Opinião

por Caroline Araújo

 

O cinema nasceu como ciência, antes de um devir arte. Era a tentativa de entender ou conseguir reproduzir o que o olho, o olhar humano conseguia ver, ser, transcender.  Depois, do empurrão cientifico, nas artes, teve o desdobramento entretenimento onde ganhou popularidade e galgou varias outras dimensões.

Acontece que, dede o primeiro contato que o cinema teve com a arte, esta nunca deixou de ser transformado por ela e de transformar por meio dela. Esta é a essência que vemos em “TETRO – Tetro(2010)” o primeiro roteiro original de  Francis
Ford Coppola
desde aquele que muitos consideram seu melhor filme, A Conversação (1974).

Os relacionamentos familiares povoam a maior parte das obras de Coppola, quem sabe seja um reflexo deste realizador de 71, através de um mosaico sentimental, suas próprias incertezas e dúvidas sobre o tema que circunda a maior parte de seus filmes: a família.

TETRO”, nos mostra uma outra visão de família de Coppola, um filme onde teatro, dança e ópera se misturam em  metalinguagem para comentar a história que está sendo contada.

A arte alinhava tudo. Nada mais natural, já que estamos diante de uma família de artistas. Escritor promissor, Tetro (Vincent
Gallo
) se isolou na Argentina para fugir da onipresença de seu pai, um maestro famoso, regente em Nova York. Faz anos que Tetro fugiu, e seu irmão mais novo, Bennie (Alden Ehrenreich), garçom de cruzeiro, prestes a completar 18 anos, aproveita uma parada no porto de Buenos Aires para procurar seu irmão-ídolo – mas o Tetro que ele encontra não é o mesmo das suas lembranças.

A trama vai sendo apresentada aos poucos, uma parte pelo próprio Tetro e outra através dos textos que ele havia escrito. Benny, com o auxílio de Miranda, esposa de Tetro, vai encontrando e unindo as peças, para entender um pouco mais sobre sua família. Fortes luzes estroboscópicas do inicio, que se tornam um elemento recorrente no decorrer do filme e que, quando explicadas, passam a justificar o comportamento de Tetro, metalinguagem pura e inteligentíssima de Coppola. Assim como essas luzes, o maestro Carlo, pai dos dois irmãos, também é uma figura onipresente personificando a  figura opressora e inimigo comum de Tetro e Benny.

Absolutamente este é um filme que mostra que o cinema de autor ainda pode funciona, caso seja bem feito.  “Tetro”, Coppola reafirma opções de estilo feitas ainda em início de carreira, insere-se na melhor tradição hollywoodiana do melodrama e, contra todas as expectativas,  e seus próprios tropeços , rejuvenesce a sua obra. Um despertar competente.

As atuações de Vincent Gallo, Mirabel Verdú e Alden Ehrenreich ao lado da fotografia, é o principal ponto positivo de Tetro. Gallo convence como um rebelde rapaz que tenta reconstruir a vida em outro lugar, longe de sua família achando que o
passado pode ser esquecido se não for “mexido”.  Mirabel vive uma excelente companheira, acostumada aos altos e baixos de seu marido. O destaque fica por conta de Ehrenreich, vivendo o curioso Benny, personagem responsável por mover toda a engrenagem da história.

 

Todo em preto e branco, utilizando as cores para aquarelar as memórias de Tetro, Coppola compõe um belo poema. Preciso, firme, com um trabalho de pós produção delicado, que somatizam a potencialidade interpretativa, gerando uma obra bela.

 “Tetro” é assombrado pelas cobranças do “palco” (“só há espaço para um gênio nesta família”, diz seu pai), pela ferrenha critica de Srª ALONE ( sozinha ) por exemplo, Coppola transforma os vários monitores do festival literário em coro e a própria não reação de Tetro aos acontecimentos, na sua catarse solitária que esperava pela vazão. Com isso ele povoa o quadro cinematográfico de tal maneira e ainda arruma uma forma inventiva de traduzir as vozes do público que exigem de Tetro a sua obra-prima. A verdade sobre si.  Tocante. A frase final no encontro de Tetro e Benny, onde resume-se tudo: No fim, somos uma Família. imperfeita. Rival em si. Mas, família. Catarse do diretor.  Ótima cinematografia para se apreciar. Valeu Coppola.

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