O Caos; o Inicio e o Fim. A Teosofia do devir Cinema de Terrence Malick


Opinião

por Caroline Araújo

Outro dia ouvia a frase: “ A arte é empirica”. Anotei.   Só fui de fato assimilar o cerne dessa frase depois de sair de uma sessão de cinema que trouxe as lágrimas a minha fronte simplismente bela beleza de um trabalho extremamente singular, autentico e devoto.

Quando eu era bem pequena, aos nove anos, assisti um certo filme chamado “Days of heaven”. O filme ficou dias a fio na minha mente, na época mais pela plásticidade das imagens com todo aquele peso simbólico. Foi ali, naquele recorte de espaço tempo na minha infância que eu fui tocada pelo devir cinema e nunca mais consegui me separar. Só que ali, eu também fui ungida pelas lentes textuais de um dos cineastas mais antológicos e ao mesmo tempo simples de se ler, que o cinema mundial já produziu: Terrence Malick. Então, mesmo este texto sendo sobre alguém que para mim é muito pontual, faço minhas balizações sem valoração pessoal.

Este texano com mais de 40 anos de uma carreia sólida e assim como seus filmes, densa e intensa de significados, possui no  curriculo 1 curta e 5 longas metragens e inumeros roteiros. Indicado a vários Oscars, sem nunca levar, é detentor de vários prêmios ao redor do globo, como melhor diretor em Cannes em 1979 por “Days of Heaven”, Melhor filme em Berlin em 1999 por “The Thin Red Line” e Melhor filme na ultima edição de Cannes por “The Tree of life”. Muitos Criticos consideram seus filmes obras primas. E de fato, o são.

Como poucos, Malick trás para o cinema contemporâneo uma proposta de interesse na linguagem, propondo não simplesmente o experimento, mas o transbordamento real das possibilidades de esgotá-lo e transcendê-lo de maneira fruída e fragmentada, indo além. Se o Cinema conta histórias com blocos de movimento\ duração gerando sensação como dizia Gilles Deleuze, Terrence vai no cerne sensorial imagético e expurga para fora de suas lentes a intensidade metafísica das imagens que compõe.

Malick formou-se em filosofia pela Universidade de Harvard junto com Phi Beta Kappa, e essa formação esta presente em toda a sua cinematografia. Através do cinema, Malick discute filosofia pura e simples elevando o dialogo entre o espectador e a obra a degraus internos, individuais ou coletivos, no mesmo instante que exterioriza a sua visão singular sobre os assuntos que aborda. Quem quiser concorde ou não com o que ele coloca para se questionar.

“The Tree of life” seu quinto filme entrou em cartaz no circuito comercial e levará muitos a comprar o ingresso por ser estrelado por Brad Pitt e Sean Penn. Mas eu aviso: quem for assistir o filme pelos astros vai se assustar. Você deve ir para entrar em uma viagem nem um pouco convencional da arte de se fazer um cinema autoral em meio a avalanche cabeça oca que nos assola e acima disso, entrar em um debate filosófico sobre a existência terrena, e uma divagação teosófica sobre o amor do PAI para com seus filhos.

O filme foi filmado em Smithville , Texas, em 2008 e conta o drama de uma familia em multiplos periodos da história e se foca na reconciliação de um individuo com O AMOR, misericórdia e beleza com a existencia de mortes e sofrimento.

Jack O’Brien ( Sean Penn) está à deriva em sua vida mordena como arquiteto. Em uma conversa ao telefone com seu pai Sr. O’Brien ( Brad Pitt), ele confessa pensar sobre seu irmão falecido todos os dias. Quando ele vê uma árvore sendo plantada em frente a um prédio, ele começa a reminiscência central do filme. Esta obra apresenta-nos um Terrence Malick no seu estado mais puro, sendo o filme mais filosófico e subjetivo dos últimos tempos. Afinal a arte é subjetiva, ou não?

“The Tree of life” se assemelha a uma exposição fotográfica em movimento, a beleza das suas imagens e a natureza reflexiva do seu argumento sidera-nos por completo, deixando-nos com a sensação de estarmos a assistir a algo verdadeiramente único e original.

BradPitt esta assombroso em um dos papeis mais interessantes de sua carreira. Desnudo, temos um pai duro, mas extremamente amoroso, mas que não sabe como mostrar isso aos seus filhos de uma forma que não seja disciplinadora. A disciplina tensional nos leva a vigilância que acarreta sempre em punições. Chegamos a Foucault “ vigiar e punir”.

Jessica Chastain, é a esposa submissa de O’Brien, ao mesmo tempo que é permissiva aos filhos. Belíssima. Lírica. Frágil. Sua interpretação é tocante.

A fotografia do mexicano Emmanuel Lubezki, conhecido pelo seu estilo inovador é algo soberbo. Grandiosos planos em contraponto de planos minimalistas e microscópicos. O balanço das imagens, quase a deriva, sempre em frenesi fibrilar encaixa como uma luva ao textual proposto por Malick.

“The Tree of Life” é um filme sobre relações intermitentes, filme de pulsações, porém indeléveis. Suas marcas estão aí (a formação do Universo) e não poderão jamais ser apagadas. Trata-se de uma ode aos aspectos mais minimalistas da Natureza , da vida humana e da crença em Deus. Na FÉ. Malick é um poeta e este filme é um poema sobre a essência do ser humano, seus receios, defeitos, virtudes, sonhos, emoções e tudo o mais, com uma estrondosa banda-sonora de Alexandre Desplat, complemento ideal das imagens que irrompem pelos nossos olhos adentro. Um filme icnográfico que não renuncia sua ousadia e experimentação para se perder em referências convencionais. Não é um filme fácil. Digestivo. É Caótico. Catarse. Instintivo.

Malick é um obstinado incurável e incansável em sua obra, criando uma atmosfera sinestésica que conecta os atravessamentos rizomático da histórica contada, em um apogeu épico e grandioso. O presidente do juri de Cannes de 2011, Robert De Niro, quando foi entregar o premio de melhor filme do festival explicou que a escolha de “The Tree of Life” foi difícil, porém “Tinha o tamanho, a importância, a intenção, o que quer que você fale, parecia se adequar ao prêmio”.

O cinema arte existe e pulsa enquanto Malick continuar em suas reclusões criativas (ele não concede entrevistas, ficou mais de 20 anos sem filmar entre “Days of Heaven e “The Thin Red Line”). E nós ficamos com as frases iniciais da Srª O’Brien: “existem dois caminhos na vida; o da natureza e o da Graça”. Terrence mistura os dois e nos serve. Nós bebemos! Amém!

3 Respostas para “O Caos; o Inicio e o Fim. A Teosofia do devir Cinema de Terrence Malick

    • Obrigada pelo link, sobre a heterotopia, não quis no texto adentrar nos conceitos para não ficar longo. Falha minha. E sobre o vigiar e punir, todos vigiam e todos punem, a si e aos outros.

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