As tormentas humanas EM busca de UM MUNDO MELHOR


Opinião

por Caroline Araújo

 

Como seria um mundo melhor que sonhamos¿ o que teria¿ ou o que deixaria de ter¿ Nesse sonho de mundo “melhor”, sairíamos de casa para estudar, trabalhar ou lazer e saberíamos que voltaríamos, salvos¿ que gosto, que cheiro que cor teria esse mundo¿ O mundo que temos é essa imperfeição. Mas em partes ela é necessária. É um reflexo do próprio homem que o habita e domina, por isso mesmo; IMPERFEITO. Fala-se muito nas necessidades de mudança para a sobrevivência desse mundo que conhecemos, mas; será que mudar será para o bem¿ ou para o mal?  Mal. O que vem a ser essa pequena palavra sempre tão carregada de negativa? e BEM, alguém de fato já mensurou o que é o BEM?

“Heaven – Em um mundo Melhor” (2010) da diretora dinamarquesa SusanneBier, o “MundoMelhor” é possível sim, mas primeiro precisamos expurgar a maldade do âmago do ser humano, para que ele possa se tornar um ser que veja que o bem do próximo é seu próprio bem, que o mundo do próximo é seu próprio mundo, e por isso, se queres habitar em um mundo melhor, faça por onde. Bier, nos mostra dois mundos. O mundo esquecido da África onde apenas por generosidade, dedicação, total amor ao próximo sua população consegue sobreviver. Vemos um estado de completa barbárie, vemos o ser humano tosco, torto e horrível. Ao mesmo tempo, temos o mundo “louro” da Dinamarca, educado, calmo, onde o sol finda seus raios em pradarias belas de contemplação. Onde as crianças riem, vão a escola, depois para casa. Onde os pais apensar das dos problemas que possam ter, no fim civilizadamente resolvem tudo. Ao menos é o que se espera.

Bier coloca essas dicotomias bem claramente, mas no entanto densamente rasa. Os dois mundos tão diferentes são alinhavados por um personagem singular: Anton (Mikael Persbrandt), um médico dinamarquês que trabalha em uma missão em algum ponto da Africa. Anton tem que lidar com os piores cenários naquele local inóspito de humanidade, onde as pessoas não possuem nenhuma expectativa de vida, elas nem sabem o que é isso ao certo, e na sua outra mão também precisa lidar com a germinação da violência no seio de sua famlia, junto ao seu filho mais velho Elias.

Elias sofre Bulling na escola junto com seu amigo Christian, e em um dado momento o sentimento de que não podem mais aceitar esse bulling passa de algo infantil, para mortal. A ira, despertada na escola, escapa os muros da instituição e acaba sendo focada para qualquer outra situação de opressão que possa existir. Temos um Elias, ingênuo, colorido que por algum motivo se associa a um Christian amargo, taciturno, e cruel. Susanne tenta com isso, nos mostrar como o ser humano deixa-se levar ao seu pior. Como surgem o ódio, rancor, raiva e como esses sentimentos são facilmente catalisados. Temos que considerar positiva a sua intenção, mas não podemos deixar de frisar que a diretoria acovardou-se em esmiuçar o tema a que se propõe.

O que Susanne Bier coloca aqui de forma bem direta e piegas na boca de seus personagens, é a tentativa constante de enxergar em tudo aquilo que se move na Europa sintomas das doenças gerais da humanidade. Se pretendia colocar os seus personagens em um contexto complexo, e dar conta dos dramas mais variados, como o luto ou a rixa entre nações, o filme só consegue isolar e esvaziar esses personagens e esses dramas. O medo venceu, a própria Susanne que não deixou-se ir além.Entretanto, “Heaven” é um belo ensaio sobre as questões que levanta. A grandiloquência de suas imagens, a belíssima fotografia de Morten Soborg sempre saturada, nos levando exatamente ao saturamento desse mundo que Bier aquarela é digna de tirar o chapéu. Bem como a atuação de William Johnk Nielsen (Christian) e Markus Ryggard (Elias)  Cada um deles retrata bem os problemas pessoais que seus personagens passam, dando veracidade aos motivos que os conduzem no decorrer da história.

“Heaven” é um filme para refletir, sobre os ideais levantados por Anton e a dificuldade em serem aplicados no dia a dia. Mais exatamente sobre o porquê de tamanha dificuldade. E ai temos Christian e sua crueldade infantil como resposta. E Christian nos dá Elias, igual um cordeiro ao sacrifício. Isso é muito bem explorado na composição cênica.

Existe um dialogo no filme onde o pai diz para os filhos que o fato de você revidar um tapa é a maneira de você revidar um ataque que pode desencadear uma guerra. Essa associação foi deveras interessante, mas novamente friso que infelizmente foi demasiadamente rasa na abordagem.

Vencedor do Oscar 2011 na categoria de melhor filme estrangeiro, “Heaven” é um claro exemplo que de os EUA buscam filmes fora de seus muros mas que sejam politicamente corretos para exultar. O filme de Bier, é um desses. Mas até mesmo o politicamente correto precisa de uma subvertida para alcançar a profundidade. De certa forma, um bom filme, não o melhor absolutamente não, mas que vale muito a observação que nos suscita.

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