Os INCÊNDIOS que carcomem as almas.


Opinião

Por Caroline Araújo

Existem filmes que te conduzem de lugar nenhum para nenhum lugar. Existem filmes que te sacolejam e desordenam nossas “zonas de conforto” e acabam por não nos mostrar saídas. Existem filmes que nos pegam pelo estômago revirando tudo. Existem aqueles que despretensiosamente nos tiram no espaço tempo presente, e nos devolvem leves. E existe filmes que simplesmente são inexplicáveis.

“Incendies – Incêndios” (2009) do diretor canadense Denis Villeneuve é um desses inexplicáveis. Não negativamente. Mas é inexplicável a sua força e a extensão das reviravoltas que nos conduz. Inexplicável, Imperdível, profundo. Profundo como os olhos perjuros de Narwal Marwan (estupendamente interpretada pela atriz belga Lubna Azabal) uma mulher a frente do seu tempo que habita em um Líbano as portas de uma guerra cível, e que jamais perdeu a ternura e seus ideias, mesmo vivendo as atrocidades esdrúxulas pelas quais o “destino” colocou a sua porta.

Narwal tem dois filhos gêmeos, um casal. Simon e Jeanne. Há muito tempo mora no Canadá com seus filhos, trabalhando como secretaria de um tabelião. Narwal, morre e deixa aos filhos seu testamento e 3 cartas. Uma para o pai, que até aquele momento nunca fora mencionado, e supostamente esta morto. Outra para o irmão mais velho, que Narwal se separará pouco antes da guerra civil de seu país, o Líbano, estourar, no inicio dos anos 70. Simon, quer esquecer isso, Jeanne quer descobrir as suas raízes verdadeiras. Denis Villeneuve trabalha na contradição da vida que surge a partir da morte. Um evento que, em vez de encerrar uma trajetória, inicia um período de descobertas.

Como falar de um filme como este sem revelar os desdobramentos do enredo? “Incendies” remete à dificuldade intrínseca de ressaltar os méritos, produções obstinadas em  ir fundo na dor de uma família. O que dá para dizer sem descortinar mistérios é: em termo de enredo, o longa canadense indicado ao Oscar em 2011 é gol de placa; em relação à narrativa cinematográfica, é um chute seguro sem chances para o goleiro e uma das mais belas obras já realizadas.  “Incendies” apresenta o contexto político para justificar as escolhas de uma mãe para preservar o que resta de sua integridade humana.

Com 100 personagens e passado em 14 períodos históricos diferentes, “Incendie”s é complexo, sem dúvida, mas longe de ser difícil. Talvez pela aproximação do diretor do tema (parece realmente mais interessado no que está contando mais do que fazer belas cenas), Villeneuve comove pelo raciocínio, de maneira elegante e comedida, sem esconder o horror das cenas mais horrendas, usando sua experiência e sensibilidade para construir os cenários desse país fictício e único.Incendies” é o filme da cólera e do ódio universais.

Baseado numa peça do libanês Wajdi Mouawad, que fugiu com sua família do país aos 8 anos de idade por conta da guerra civil que vem destroçando o Líbano desde os anos 60. Há vários incêndios em “Incendies”, nenhum deles mais impactante que o massacre pelos cristãos de um ônibus lotado de civis muçulmanos. A força de seus diálogos é assombrosa, como No testamento que Narwal deixa aos filhos, lê-se: “Enterrem-me sem caixão, nua e sem orações, com a face voltada para a terra. Nada de epitáfio para aqueles que não cumprem suas promessas“.

Um filme, doloroso e brutal, com um pulso fantástico na direção e um roteiro rico e intenso. Os desdobramentos, revelações e a condução do espectador à compreensão da dor e da vida de Narwal reverberam, e não decantam. Belo e bruto. “Incendies” é um desses filmes que nos mostra o verdadeiro porque de se fazer cinema. Indicado ao Oscar de 2011 acabou não levando, mas independente de premio, cinematografia obrigatória dos amantes e pesquisadores da sétima arte.

 

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