O CINZA na brancura de uma inóspita paisagem.

em Cartaz

por Caroline Araújo

Frio. Frio. E mais frio. Em uma paisagem inóspita, em uma realidade quase que insólita, em algum confim de mundo, o animal homem tenta se colocar a frente de algo maior que o próprio entendimento, por conta desse louco sistema de capital na qual nossa sociedade se encontra. Acontece que, em zilhões de filmes anteriores, que de certa maneira trabalharam a questão “survive”, o homem; sempre perde.

Joe Carnahan deixou as explosões e orçamentos astronômicos de lado, e lançou-se na embrenhada gelada de mostrar outro lado de seu trabalho. Elegante (to usando bastante essa palavra), subjetivo, beirando certo minimalismo, e muito interessante.

“The Grey – A Perseguição”(2012) é tenso e como se não fosse possível, consegue elevar a tensão ao extremo pelo ESTUPENDO, e isso tem que ser grafado, projeto sonoro. Carnahan coloca um grupo de homens que acabara de sobreviver a um acidente aéreo quando regressavam para suas casas, vindo de uma estação de extração de petróleo que fica onde Judas perdeu qualquer coisa; em meio a um descampado de gelo que se estende até onde a vista alcança. Contudo, e como se não bastasse o estresse por eles sofrido, salpicam lobinhos nem um pouco fofinhos por tudo quanto é flanco existente. E esses lobinhos estão a fim de brincar de policia e ladrão, só que de uma maneira bem letal.

Com um bom grupo de atores, encabeçado pelo veterano Liam Neeson, Carnahan nos conduz de forma instigante e completamente presa ao contexto. Palmas para ele. Liam  vive o atormentado Ottway, um oficial de segurança que na extratora trabalha exatamente mantando lobos para que estes não matem os funcionários; assume a liderança do fadado grupo numa tentativa de sobreviver a matilha lupina que os rodeia.

Poucas vezes os uivos e rosnados foram tão ameaçadores no cinema. É curioso como Carnahan mescla isso, com os momentos de introspecção, quebrando a tensão, levando o espectador a juntar as peças do quebra cabeça e começar a compreender quem são esses homens. Fora didatismo.

É logico que existem alguns escorregões, com tanto gelo, isso é normal. Tirando a parte do sentar em roda e cada um lembrar-se de suas histórias e porque quer sobreviver, e sim, algumas demasiadas vezes que Ottway recita um bendito poema, o filme funciona, e muito bem. Não é a joia rara do Nilo, mas vale o ingresso e o pacote de pipocas! Só não curti esse titulo em português. Piada. Até pelo fato, de que o titulo original, faz uma certa menção ao Macho alfa, “O cinza”. Liam esta sempre de cinza, e personifica o alfa. Podiam manter a tradução que funcionaria muiittoooo melhor.

E os lobinhos.. bem, estes são maus, maus pior que o pica -pau.

SERTANISTAS DE UM BRASIL DE FRONTEIRAS- Heróis de um povo de várias nações

Em cartaz

Por Caroline Araújo

Os Villas Bôas eram mesmo homens destemidos. Embrenhando pelas matas virgens, cheias de histórias, três dos quatro irmãos; mais novo Álvaro, era muito menino quando iniciaram os trabalhos de sertanistas; em pela década de 40, em meio à expansão para o oeste brasileiro incentivado pelo governo federal da época, não sabiam que de fato, embrenhavam nas terras onde fincariam as raízes de suas próprias histórias. Orlando, Cláudio e Leonardo, foram vanguardistas da Expedição Roncador – Xingu, criada pela Fundação Brasil Central.

Os trabalhos, os projetos, a HUMANIDADE com que obrigaram que o PAÍS vissem seus filhos, donos legítimos destas terras que hoje habitamos – eu habito, pois moro exatamente em MATO GROSSO, estado no qual os irmãos viveram praticamente durante 42 anos defendendo as nações indígenas – extrapolam, livros e filmes.

“XINGU” (2012) novo filme do diretor brasileiro Cao Hamburger (“O Ano em que Meus pais Sairam de Férias”) é um thriller de aventura pelas matas do Brasil central por onde os Villas Bôas percorreram, cujo no pano de fundo o caráter histórico daquele período é trabalhado, mas onde o foco central é a história dos 3 irmãos. Sendo assim, o titulo deveria ter sido “BÔAS”.

A história começa em 1943, quando Claudio e Leonardo se descaracterizam para se inscreverem na expedição da Fundação Brasil central. E dai em diante, os fatos dão saltos, desde o primeiro contato com as nações indígenas da região, até a dizimação de parte de uma aldeia por conta de um surto de Febre, a implantação da base militar do Cachimbo e o inicio dos trabalhos da Transamazônica.

Cao, tem uma habilidade particular em construir quadros de imagens. E aliou a beleza plástica da natureza do local, com a luz soberba dos contra luz que intercalou de forma elegante. Teve ainda a felicidade de escalar três atores que “vestem-se” de Orlando, Claudio e Leonardo de forma impressionante. Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat, estão precisos, com interpretações limpas e convincentes. Ponto maior a João Miguel, cuja centralidade é rapidamente percebida no desenrolar da película, e a construção de seu personagem é tocante.

O Índios, não atores, que atuam no filme, são um show a parte e merecem total destaque. A trilha sonora feita por Beto Villares parece preencher cada brecha existente, como uma eficiência surpreendente em termos de trilhas nacionais, e fiquei impressionada. A fotografia de Adriano Goldman é intensa, inspiradora e bela.

Contudo, mesmo com um roteiro fluido, algumas situações que poderiam ter sido exploradas, ou que “por que diabos elas esta ai¿”, me fazem concluir, que sim, “XINGU”, de certa forma “brocha”, e não atinge o seu potencial total. É como se você comprasse um MAC PRO i7 apenas para ver e-mail e escrever em word, entende¿

A narrativa linear, dança, um tanto lenta, em momentos que talvez a opção por uma “agilizada” pudesse valer mais. Maria Flor, que interpreta a enfermeira Marina, que se torna esposa de Orlando, faz uma ponta tão pifía. A própria relação que os Villas Bôas tem junto com Marechal Rondon para de fato implantar o Parque Nacional do Xingu, é parca.

Optou-se para colocar Orlando, sozinho, falando nos bastidores, enquanto Claudio continuava na linha de frente do posto na mata junto aos Índios e Leonardo já havia se desligado do grupo, por ter se relacionado com uma nativa e tê-la engravidado. Por isso, disse no Inicio que o titulo deveria ter sido outro. A Importância do Parque,é pano de fundo. E tirando alguns planos contemplativos em Claudio, a mudança que o contato com esse Brasil, com esse outro mundo, de fato, não é profundamente explorado. Imaginem em quantos fios de navalhas esses sertanistas viveram para tentar construir algo minimamente digno as nações indígenas.

O Clima de luta, a luta existente naquela época, e que persiste até hoje, também merecia peso maior. E acho que foi ai, que senti a brochada, pois o filme crescia e de repente, dá uma despencadinha. Os conflitos existem até hoje. Don Pedro Casaldáliga, que habita a região até hoje que o diga. “XINGU” figura como um filme denuncia, com o final utilizado. Mas foi uma denuncia mansa, né.

A bandeira erguida pelos irmãos Villas Bôas, esta ai, na mensagem final do filme de Cao, e precisando de seguidores para estar na linha de frente. A realidade dos acontecimentos não cabe nas telas. Indigesta.  Como marco comemorativo aos 50 anos de implantação do Parque Nacional do Xingu, o que explica e bastante sua realização em 2011, o filme funciona, e bem, com a boa distribuição e a Globo – filmes como co-produção.

Mas, “XINGU” é um belo filme, um projeto cuidadoso e que, eu aposto (seus produtores sabem disso tanto quanto eu) que é o filme brasileiro feito até hoje com mais chances de levar o sonhado “OSCAR”. Ele foi pensado para o espectador externo em tempos de RIO+20. Anotem ai. Fecho com uma das citações de Claudio em um dos 12 livros que escreveu com Orlando para ilustrar o porque digo que o filme morreu na beira da praia antes de arrebentar: “Se achamos que nosso objetivo aqui, na nossa rápida passagem pela Terra, é acumular riquezas, então não temos nada a aprender com os índios. Mas se acreditamos que o ideal é o equilíbrio do homem dentro de sua família e dentro de sua comunidade, então os índios têm lições extraordinárias para nos dar.” Cláudio Villas-Bôas .Boa sessão.

ps: em 2003 o maior Karup – ritual de homenagem aos mortos ilustres celebrado pelos povos indígenas da região do Xingu- foi feito para Orlando que falecera em 2002 com 88 anos. Antes, apenas o de Claudio tivera tanta grandiosidade.

ESPELHO ESPELHO MEU, AINDA BEM QUE EXISTE O CONTO ORIGINAL MELHOR DO QUE EU.

Estreia

Por Caroline Araújo

Boas histórias tem releituras adi infinutum . Popularizada e imortalizada em todo o mundo após a compilação de contos de fada da tradição oral alemã compilado pelos irmãos Grimm em um livro intitulado “Conto de Fadas para Crianças e Adultos”, a história de Branca de Neve volta com tudo em 2012.

“Mirror, Mirror – Espelho, Espelho meu” (2012) dirigido pelo inconfundível indiano Tarsem Singh (“The Cell” e “Imortais”) e suas saturadas “cores” acaba de estear nas salas brazucas. Trazendo Julia Roberts no papel da Rainha Má e Lilly Collins como  Branca de Neve, Tarsem trabalha um lado menos sombrio e muito mais leve deste conto, e ainda faz uma homenagem aos irmãos Grimm, colocando como nome em um dos personagens. Contudo, o que inicialmente começa como uma possível sátira torna-se posteriormente, enfadonho e previsível.

 

Na história de Tarsem, cujo roteiro é assinado por Jacob Grimm e Wilhelm Grimm, a rainha vivida por Julia, mantém a princesa Branca de Neve enclausurada no castelo, enquanto domina o reino após o REI ser dado como morto depois de desaparecer misteriosamente na floresta sombria. Figurinos estruturados e luminosos, são obras de arte a parte, que abrilhantam uma cenografia um tanto, fraca, eu diria. A rainha, nem é tão má e sim, sarcástica. Interessante versão.

Príncipe Alcott (Armie Hammer)  ocupa um lugar de disputa entre o verdadeiro amor de Branca de Neve e a vaidosa necessidade de poder da Rainha Má. Armie esta muito bem no papel, além de encantadoramente personificar um príncipe daqueles! Assim como Lilly que empresta a Branca de Neve os finos traços que nos remetem a Audrey Hepburn.

Contudo o sarcasmo, que seria o ponto alto dessa releitura, perde-se em algum lugar entre um vestido de cisne a lá Björk (todos vão fazer essa ligação, pois é IMPOSSÍVEL NÃO FAZÊ-LA) e o fera sombria extremamente fofa que quando você a vê de frente pela primeira vez, mata a charada no segundo seguinte. PREVISÍVELMENTE IDIOTA. Natan Lane, sempre bom, como puxa- saco real, é uma das boas surpresas.

Os sete anões ganharam pernas de pau, viraram ladrões e em fim, suas piadas não são engraçadas. Roberts, LINDA, obvio, esta tão a vontade como rainha quase má. Mas sua beleza, não ajuda com que o filme ganhe uma respiração extra. Sean Bean,  que personifica o rei tem uma pífia participação e esta pessimamente dirigido. Ai ai Ed Stark!

Mas o que mais me incomodou sem duvida, foi o laçarote laranja horroroso no vestido de casamento de Branca de Neve na parte final. Jesus! Já não bastava o vestido de cisne¿¿¿

FAMINTOS por boas Histórias

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 em cartaz

por Caroline Araújo

Primeiro, desculpe pelo hiato de postagens, mas tenho explicação. As publicações de artigos de mestrado e montagem dos seminários de qualificação colocavam-se a frente. Mas, agora que tudo volta ao lugar, escolhemos, digamos uma nova trilogia que ganha forma no mundo cinematográfico para opinarmos sobre.

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Adaptado do mais novo sucesso literário mundial escrito por Suzanne Collins, “THE HUNGER GAMES – Jogos Vorazes”, dirigido por Gary Ross (“Seabiscuti”) que assina junto a Collins o roteiro, o que talvez tenha sido um dos trunfos inteligentes do projeto, para não se tornar um novo “Crepúsculo” da vida. Mas o trunfo maior, sem dúvida foi escalar Jennifer Lawrence para dar vida a heroína da estória, Katniss Everdeen.

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A história se passa num futuro pós apocalíptico, onde os EUA não existem mais e em seu lugar ergueu-se PANEM, um estado nação governado pela tirânica CAPITAL, que por sua vez é circundada por doze paupérrimos distritos  de ondem operam num sistemas de metrópole e colônia. Em decorrência de eventos passados, onde os distritos ensaiaram um motim para assumir o controle, a CAPITAL governa com a mão de ferro, mostrando que os distritos estão a sua mercê. E para explicitar isso, anualmente promovem um reality show chamado “The Hunger Games”. Já viu onde isso vai dar.

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Lógico, que lá nos confins do distrito 12 (o último só para constar), um jovem (BONITA, mas mau cuidada) é praticamente o esteio da família destroçada após a morte do pai. Ela que dá forças a mãe depressiva, que buscar meios de alimentar a família, e principalmente cuidar da irmã mais nova. Como construção de um bom melodrama clássico, a estrutura narrativa, é precisa, e prende o espectador, mas eu avalio que ela vai além.

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A dicotomia de riqueza e pobreza abordada de forma “esquizofrênica” incomoda. Mas é para incomodar. Muitos vão achar loucura, civilizações que depois de tudo, fazem “oferendas” de pessoas vivas. Gente, quer mais oferenda que o continente africano inteiro, HOJE, viver cheio de insurgências de milícias¿ o resto do mundo assiste. Tal qual no universo de PANEM.

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A ideia de adolescentes a lutar uns contra os outros pela vida é por si só perturbante e capaz de alienar audiências. Mas Gary Ross realiza os Jogos da Fome de uma maneira que não implica a chacina sádica nem o aplauso desprovido de máxima. Discussões sobre autoridade, culto a celebridades, obediência e controle inevitavelmente remetem aos trabalhos de Foucault – Vigiar e Punir | Sociedade de Controle– são pontos chaves no filme em questão, isso me fez lembrar “The Truman Show”. Só lembrei.

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Jennifer Lawrence traz a Katniss um equilíbrio perfeito de fragilidade e determinação. Alias, essa garota arrebenta! (vou jogar confete) em “Inverno da Alma” ele extrapolou o filme, e mostra um profissionalismo exemplar, adentrando a pele de Katniss com naturalidade. Sentimos seus medos, aflições, raivas e sua INGENUIDADE.

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Não li o livro, confesso, que vou. Entrei na sala de cinema sem saber nada sobre o que iria assistir, e gostei. Porque, depois de exaltar um cinema mudo e uma publicidade exacerbada na volta a origem dos grandes estúdios, ver um filme de ação, cuja a personagem principal é FEMININA, com um arco e flecha na mão, determinada e com PRINCIPIOS, e sem apelação para explosões, nudez ou super astros, mostra que quem sabe, nem tudo esteja perdido.