SERTANISTAS DE UM BRASIL DE FRONTEIRAS- Heróis de um povo de várias nações


Em cartaz

Por Caroline Araújo

Os Villas Bôas eram mesmo homens destemidos. Embrenhando pelas matas virgens, cheias de histórias, três dos quatro irmãos; mais novo Álvaro, era muito menino quando iniciaram os trabalhos de sertanistas; em pela década de 40, em meio à expansão para o oeste brasileiro incentivado pelo governo federal da época, não sabiam que de fato, embrenhavam nas terras onde fincariam as raízes de suas próprias histórias. Orlando, Cláudio e Leonardo, foram vanguardistas da Expedição Roncador – Xingu, criada pela Fundação Brasil Central.

Os trabalhos, os projetos, a HUMANIDADE com que obrigaram que o PAÍS vissem seus filhos, donos legítimos destas terras que hoje habitamos – eu habito, pois moro exatamente em MATO GROSSO, estado no qual os irmãos viveram praticamente durante 42 anos defendendo as nações indígenas – extrapolam, livros e filmes.

“XINGU” (2012) novo filme do diretor brasileiro Cao Hamburger (“O Ano em que Meus pais Sairam de Férias”) é um thriller de aventura pelas matas do Brasil central por onde os Villas Bôas percorreram, cujo no pano de fundo o caráter histórico daquele período é trabalhado, mas onde o foco central é a história dos 3 irmãos. Sendo assim, o titulo deveria ter sido “BÔAS”.

A história começa em 1943, quando Claudio e Leonardo se descaracterizam para se inscreverem na expedição da Fundação Brasil central. E dai em diante, os fatos dão saltos, desde o primeiro contato com as nações indígenas da região, até a dizimação de parte de uma aldeia por conta de um surto de Febre, a implantação da base militar do Cachimbo e o inicio dos trabalhos da Transamazônica.

Cao, tem uma habilidade particular em construir quadros de imagens. E aliou a beleza plástica da natureza do local, com a luz soberba dos contra luz que intercalou de forma elegante. Teve ainda a felicidade de escalar três atores que “vestem-se” de Orlando, Claudio e Leonardo de forma impressionante. Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat, estão precisos, com interpretações limpas e convincentes. Ponto maior a João Miguel, cuja centralidade é rapidamente percebida no desenrolar da película, e a construção de seu personagem é tocante.

O Índios, não atores, que atuam no filme, são um show a parte e merecem total destaque. A trilha sonora feita por Beto Villares parece preencher cada brecha existente, como uma eficiência surpreendente em termos de trilhas nacionais, e fiquei impressionada. A fotografia de Adriano Goldman é intensa, inspiradora e bela.

Contudo, mesmo com um roteiro fluido, algumas situações que poderiam ter sido exploradas, ou que “por que diabos elas esta ai¿”, me fazem concluir, que sim, “XINGU”, de certa forma “brocha”, e não atinge o seu potencial total. É como se você comprasse um MAC PRO i7 apenas para ver e-mail e escrever em word, entende¿

A narrativa linear, dança, um tanto lenta, em momentos que talvez a opção por uma “agilizada” pudesse valer mais. Maria Flor, que interpreta a enfermeira Marina, que se torna esposa de Orlando, faz uma ponta tão pifía. A própria relação que os Villas Bôas tem junto com Marechal Rondon para de fato implantar o Parque Nacional do Xingu, é parca.

Optou-se para colocar Orlando, sozinho, falando nos bastidores, enquanto Claudio continuava na linha de frente do posto na mata junto aos Índios e Leonardo já havia se desligado do grupo, por ter se relacionado com uma nativa e tê-la engravidado. Por isso, disse no Inicio que o titulo deveria ter sido outro. A Importância do Parque,é pano de fundo. E tirando alguns planos contemplativos em Claudio, a mudança que o contato com esse Brasil, com esse outro mundo, de fato, não é profundamente explorado. Imaginem em quantos fios de navalhas esses sertanistas viveram para tentar construir algo minimamente digno as nações indígenas.

O Clima de luta, a luta existente naquela época, e que persiste até hoje, também merecia peso maior. E acho que foi ai, que senti a brochada, pois o filme crescia e de repente, dá uma despencadinha. Os conflitos existem até hoje. Don Pedro Casaldáliga, que habita a região até hoje que o diga. “XINGU” figura como um filme denuncia, com o final utilizado. Mas foi uma denuncia mansa, né.

A bandeira erguida pelos irmãos Villas Bôas, esta ai, na mensagem final do filme de Cao, e precisando de seguidores para estar na linha de frente. A realidade dos acontecimentos não cabe nas telas. Indigesta.  Como marco comemorativo aos 50 anos de implantação do Parque Nacional do Xingu, o que explica e bastante sua realização em 2011, o filme funciona, e bem, com a boa distribuição e a Globo – filmes como co-produção.

Mas, “XINGU” é um belo filme, um projeto cuidadoso e que, eu aposto (seus produtores sabem disso tanto quanto eu) que é o filme brasileiro feito até hoje com mais chances de levar o sonhado “OSCAR”. Ele foi pensado para o espectador externo em tempos de RIO+20. Anotem ai. Fecho com uma das citações de Claudio em um dos 12 livros que escreveu com Orlando para ilustrar o porque digo que o filme morreu na beira da praia antes de arrebentar: “Se achamos que nosso objetivo aqui, na nossa rápida passagem pela Terra, é acumular riquezas, então não temos nada a aprender com os índios. Mas se acreditamos que o ideal é o equilíbrio do homem dentro de sua família e dentro de sua comunidade, então os índios têm lições extraordinárias para nos dar.” Cláudio Villas-Bôas .Boa sessão.

ps: em 2003 o maior Karup – ritual de homenagem aos mortos ilustres celebrado pelos povos indígenas da região do Xingu- foi feito para Orlando que falecera em 2002 com 88 anos. Antes, apenas o de Claudio tivera tanta grandiosidade.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s