SERRA PELADA E SUAS REMINISCENCIAS


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em Cartaz

por Caroline Araújo

Depois de um longo hiato, voltamos. Pedimos desculpas, mas as calhas da vida giram vez ou outra nos jogando num 360 que em muitos momentos se torna complicado voltar ao prumo. Voltamos, e voltamos fortificados. Nada mais bacana que retorna aos nossos textos opinativos trazendo considerações de uma das estreias mais esperadas do cinema brasileiro em 2013.

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O cineasta Heitor Dalhia  – “O Cheiro do Ralo” e “À Deriva” – estava ciente do perigo ao qual estava se colocando, propôs-se a contar a história de dois amigos , vividos por Juliano Cazarré e Júlio Andrade,  que partem de São Paulo rumo ao sul do Pará em busca do sonho dourado; e de como a vida no garimpo muda drasticamente suas vidas e põe em xeque a antes sólida amizade. “Serra Pelada” faz um misto bem azeitado de drama, ação e romance que mantém ritmo constante e, ao contrário de seus protagonistas garimpeiros, não deixa uma trilha de buracos pelo caminho. A comparação com a obra de Fernando Meirelles “Cidade de Deus” é inevitável, em muitos momentos parece um spin – off do filme de Meirelles no que diz respeito a estrutura narrativa e a linguagem utilizada . Dalhia trabalha um gênero que poucas vezes vimos no cinema nacional, o épico.

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 Assim como o filme de Meirelles, Dalhia conta a história do frenesi do ouro que representou a descoberta das minas de Serra Pelada, no Pará utilizando do dispositivo cinematográfico da narração em off. Contudo, em “Serra Pelada”, a narração é completamente expositiva, sublinhando sempre aquilo que esta óbvia nas imagens, ou substituindo cenas de forma preguiçosa. Nosso narrador ao contrário do Buscapé de “Cidade de Deus” não tem a força do observador e participante, pelo menos não fica claro, mesmo a historia sendo narrada pelos protagonistas.  O recurso da narração ainda abre a possibilidade de uma montagem que abusa de elipses temporais, e essa falta de cenas de preparação (algum comum nas estruturas narrativas, sempre precedendo um evento importante) acaba por tirar a força de uma série de momentos cruciais da história, que acabam por passar de forma muito corrida. As comparações com “Cidade de Deus” são inevitáveis, trazendo de volta inclusive uma “cosmética da fome” de um rincão do país marcado pela ganância desenfreada no inicio dos anos 80. Dessa forma, encontramos neste filme de Dalhia um outro espécime dos filmes de gangster hollywoodianos, correndo atrás do senso do espetáculo, onde a febre do Ouro muda a essência das pessoas e torna amigos irmãos em inimigos selvagens.

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Focando sua natureza épica, “Serra Pelada” se mostra grandioso e competentíssimo nos quesitos técnicos, como fotografia, direção de arte e figurino. Recriando as escavações numa mineradora desativada em Mogi das Cruzes, a obra consegue pontuar perfeitamente suas locações e tece uma comparação ímpar no abismo do barro dos garimpos com as pirâmides invertidas do Egito ou na construção de uma “Las Vegas do inferno” que se resume ao vilarejo do “Trinta”. O ar documental empregado em vários momentos ajuda a fixação da verossimilhança, e atesta uma fidedignidade a recriação feita daquele lugar que transforma homens em monstros e onde os sonhos muitas vezes tornaram-se pesadelos.

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Juliano Cazarré e Júlio Andrade dão vida aos amigos irmãos que se jogam nesse sonho pela riqueza rápida. A dupla funciona e segura a película do inicio ao fim, fazendo com que entremos nos infernos pessoais de cada personagem. Chamo atenção para a cena da febre da malária de Júlio que Dalhia fez um plano belíssimo comparando a febre do ouro, numa composição cênica ótima. Sophie Charlotte conseguem levar sua personagens – apesar da total falta de carisma – e transforma sua atuação de forma emocionante. Matheus Nachtergaele encarna uma criatura que apesar da aparência frágil, se mostra um ser nojento e de natureza napoleônica. Já Wagner Moura, dá trejeitos cômicos e tons doentios a um dos psicopatas mais marcantes da atualidade.

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Dalhia fez um bom trabalho. Redondo. Vale o ingresso.

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