COCKPIT, BORRACHA QUEIMADA E COMSUTÍVEL NÍVEL FULL!

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Opinião

Por CAROLINE ARAÚJO

OBSESSÃO. Impertinência, perseguição, ideia fixa. Para muitos a busca dos atletas para superar limites quebrando barreiras de grandezas físicas universais, como tempo e velocidade, é uma espécie de obsessão. Filmes que retratam o universo esportivo, competitivos ou de superação sempre são bem aceitos, sendo bem feitos ou não; pois na essência do homem a questão da competitividade esta intrínseca. Somos animais e disputamos a sobrevivência desde antes da descoberta do fogo.

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É a obsessão, carburada pela competitividade que abriu terreno para a questão homem versus máquina. Superar. Ir além. Esticar ao limite o tendão que liga o possível até o intangível. Ron Howard (“Mente Brilhante”) escreve na tela um poema visual, uma espécie de testamento à obsessão de dois homens com suas personalidades distintas, mas com algo em comum: uma insólita e fascinante história vinda exatamente da obsessão por um objeto único e o que se está disposto a fazer para atingi-lo.

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“RUSH – No limite da Emoção” (2013) dirigido por Howard e escrito brilhantemente por Peter Morgan (“Froxt\Nixon”) retrata a história real de uma das mais belas rivalidades esportivas já conhecidas: A disputa entre os pilotos de Fórmula 1 na década de 70, Niki Lauda e James Hunt. De um lado temos o Austríaco Lauda, tecnicamente perfeito, meticuloso, centrado e extremamente preciso, e do outro o Britânico Hunt farrista, mulherengo, agressivo e impulsivo. A primeira metade do filme, simultaneamente se preocupa em apresentar nossos obsessivos em questão, apresentando os personagens, suas qualidades e defeitos, abrindo o foco para o interior de cada um deles e situando o espectador historicamente e ambientalmente, criando uma geografia dramática onde o cheiro da borracha queimada e da chuva no asfalto quente pula das telas para o olfato de quem assisti.

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Os anos 70 eram descontrolados e intensos. Na F1 pilotos entravam nas pistas sem saber se terminariam a corrida por conta dos acidentes frequentes e extremamente violentos, morrendo 1 piloto por ano nessa gana de testar os limites da velocidade. A rivalidade esportiva é o foco na tela e sendo o fio condutor para explorar o interior de cada um dos pilotos em questão. Nisso sobram pontos positivos a recriação precisa dos anos 70 utilizando não apenas a direção de arte e figurino datados, mas uma fotografia granulada com um tom lavado especifica daquela época, feita de forma competentíssima pelo premiado Anthony Dad Monthe. Faça uma equação de soma com a Edição ágil, jogo de lentes, enquadramentos e a musica de Hans Zimmer, nos dá um filme onde cada curva de aceleração é um drama intenso, num ótimo exemplar de filme esportivo que empolga e tem um substrato único, ultrapassando o limite do entretenimento.

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A habilidade de contar uma boa história pelos meios audiovisuais seria uma grandeza cinematográfica. Howard respeita o rico material que tinha em mãos e executa esse teorema, não querendo reinventar a roda, mas equalizando e equilibrando os elementos que tinha disponíveis para a empreitada e tecendo uma ultrapassagem de forma habilidosa em vários longas metragens esportivos produzidos nos últimos anos.

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Contudo, mesmo com uma ótima fotografia, uma musica inspirada, edição sonora alucinante, bom roteiro, direção de arte impecável e uma direção precisa para contar a história de uma OBSESSÃO real de dois grandes homens do esporte mundial, tudo ruiria se a dupla de atores não fizesse a entrega a seus personagens tal qual a rivalidade dos pilotos necessitava. Daniel Brühl (“Adeus, Lenin!”) e Chris Hemsworth (“THOR”) duelam de forma eletrizante emprestando aos seus papéis paixão, obstinação e competência. Daniel é impecável, sem sombra de dúvidas. Ele transfigura-se em um Niki Lauda perfeccionista com uma força inigualável, em um trabalho de mimetização tão inspirador quanto surpreendente. Já Hemsworht mostra que é mais que um rosto bonito e que sim, é bom ator. A simbiose interpretativa dos dois são pontos fortes dentro e fora das pistas, criando a atmosfera de cada personagem independente um do outro, que culmina na tensão da rota de colisão que vemos gradativamente ser desenhada.

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“RUSH” ultrapassa a empatia de fãs de esporte e coloca o espectador dentro do carro, nas engrenagens, na pista, na dor das queimaduras, na ideia fixa, no limite, no ir além, sentindo o ronco do motor acelerar os batimentos cardíacos de quem assisti. Pontos para Howard. Pena ter sido totalmente esquecido nesta disputa do Oscar 2014, já que o cerne de sua história é um estudo profundo sobre a própria motivação humana.

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WOLF! WOLF! WOLF!

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Em Cartaz

Por CAROLINE ARAÚJO

Influenciador. Um verdadeiro gênio e como tal, por muitas vezes incompreendido. Contudo, incansável e detentor de uma devoção ao cinema tão voraz, que desde quando teve suas primeiras aparições na onda revolucionária que tomou Hollywood e seus diretores na década de 70, desde então construiu inúmeras obras primas da sétima arte. “Taxi Driver”,  “Touro Indomável”, “Os Bons Companheiros”, “Cassino”, “Os Infiltrados” e um dos mais recentes “A Invenção de Hugo Cabret” nos pincelam a versatilidade, o talento e a coragem que este cineasta detém. Em sua quinta parceria com o ator Leonardo DiCaprio, Martim Scorsese constrói uma ode a depravação, onde mais um personagem solitário em conflito com o sistema ou com seus demônios ganha profundidade perante as lentes do diretor.

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“The Wolf of Wall Street – O Lobo de Wall Street”(2013) o mais recente trabalho assinado por Scorsese, o diretor rompe com o fugaz e com o cinema certinho dando um chute na porta, não tendo medo de ser subversivo e mostrar que gosta disso. Sem moralismo ou julgamento, Scorsese retrata o universo de um Jovem e ambicioso corretor de Wall Street, Jordan Belfort    (DiCaprio) que fica milionário nos anos 80 com práticas antiéticas e ilegais desafiando qualquer moral que exista. O universo criado por Martim para ilustrar a vida de Jordan mostra a veneração ao dinheiro, numa das histórias mais amorais produzidas em Hollywood nos últimos anos. Temos um bacanal renascentista pulando em seios e púbis na tela, salpicados de luddes, e todo tipo de pó.

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Jordan é amoral em essência. Scorsese então faz um filme onde o excesso é a cereja. O mundo de Jordan é uma representação distorcida da sociedade onde ele se encontra. Tudo e todos são corruptíveis e está a venda. O filme não faz um elogio ao excesso. Ao contrário. Pelo escarnio, Scorsese desafia o espectador a questionar-se não apenas o que ele esta vendo, mas o que ele sente ao assistir a película e isso só é possível porque não existe pudor. Em nenhum frame.  Para isso ele explora e muito bem elementos variados da linguagem cinematográfica, como a estética televisiva, onde em vários momentos a tela de fullscreen passa para widescreen, ou em planos detalhes minúsculos no meio de uma sequencia de planos maiores, apenas para dar uma quebrada no ritmo, ou ainda a brincadeira com a abertura do filme começando com a logo da STRATTON OAKMONT.

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Scorsese rege com maestria sua ópera ao hedonismo. E faz isso com um time afiado de atores que se jogaram nessa trincheira alucinógena. DiCaprio e Jonh Hill fazem a dupla principal, uma versão medo e delírio do Gordo e o Magro, e, estão fabulosos. Hill personifica o asqueroso e irritante braço direito de Jordan, e este por sua vez é literalmente o lobo na pele de uma falsa ovelhinha. DiCaprio esta radiante na atuação e entrega, confirmando o talento inegável que possui. As cenas onde retratam estarem chapados por qualquer droga que fossem são fantásticas!

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Fora isso, o Roteiro de Terence Winter é redondo, sem brechas. Bingo! Junte tudo isso e entregue para Scorsese. Ele nos devolve mais uma obra prima. Com 5 indicações ao Oscar, “The Wolf of Wall Street” desafia a moral e os bons costumes ao dar chance de imaginar o que seria essa selva de números e sem escrúpulos do mundo da corretagem. Desafia inclusive o nosso bom senso, em sermos abertos ou retrógrados. Grata surpresa, e forte candidato as estatuetas douradas, além de mais uma boa aula de como se fazer cinema de verdade.

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AS SUTILEZAS INDIGESTAS DE UMA FAMÍLIA

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Opinião

Por Caroline Araújo

Adaptações. Quando são feitas de grandes obras da literatura ou do teatro, vencedoras de prêmios, vendedoras de livros e ingressos sempre chegam ao cinema cercado de grandes expectativas em torno do corpo que lhe fora esculpido para ganhar a telona. Quando junta-se a isso nomes de peso do cinema mundial, dobra-se a responsabilidade. O texto de Tracy Letts, inicialmente feito para o teatro e que fora produzido recentemente para o cinema é uma junção de equações densas. Diálogos pesados, personagens brutalmente esmagados pelas agruras de relacionamentos familiares, paisagens inóspitas em um verão escaldante no extremo oeste dos Estados Unidos, e um elenco não só de estrelas.

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AUGUST: OSAGE CONTRY” traduzido como “ÁLBUM DE FAMÍLIA” (2013) dirigido pelo ainda desconhecido diretor John Wells (“A grande Virada”) nos mostra como em alguns momentos a frase de T.S. Eliot se faz verdadeira: “A Vida é muito Longa”. A direção conduz o filme a nos mostrar a questão do tempo e sua incomensurável dureza, atropelando os seres sem que nada possa simplesmente detê-lo. O tempo é o fator incontrolável. Cedo ou tarde verdades e mentiras surgem frente aos que se negavam encarar.

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Sean Shepard interpreta Beverly Weston, patriarca de uma família tipicamente americana, formada na Grande Geração que sobreviveu a grande depressão e guerras com o lema de fazer a coisa certa – trabalho e família acima de tudo. De repente ele some misteriosamente e obriga sua moribunda esposa, Violet Weston (Meryl Streep) a buscar reunir suas filhas e familiares na tentativa de explicações e consolações pelo sumiço do esposo.

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Este acontecimento é apenas o estopim, para que ressentimentos esmagados pelo silencio e distância, venham a tona e sejam vomitados de forma visceral. Pesado. Extremamente sombrio e doído. Não é de longe um filme fácil, e muito menos uma comédia, como se encontra classificado. Streep interpreta uma mulher tão doente e ressequida, absurdamente dura, tal qual as pradarias da Oklahoma que vive. Julia Roberts dá vida a Barb, sua filha mais velha, e a única que bate de frente com a voracidade da mãe, produzindo cenas tão pesadas que é impossível ficar impávido ao que se assisti.

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O grande nó torna-se a direção, que arrasta alguns desfechos, ou opta por caminhos longos para se chegar a pontos que seriam melhores trabalhados de forma direta. Mesmo assim, o elenco inspirado, produz um filme que nos mostra o poder de bons textos e personagens quando bons atores se entregam a fazer. Na temporada de prêmios que se vislumbra, indicações não faltarão.

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