O Relacionamento Exemplar

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Em cartaz

Por Caroline Araújo

Digestão fílmica. Foi isso que fiz durante uma semana. Voltei ao cinema e assisti uma vez mais para com lisura poder discorrer sobre. Fiz isso porque em nenhum momento queria estar contaminada pelo olhar de quem curte (e muito) os trabalhos do diretor estadunidense David Fincher. Precisava tirar a prova dos 9 e o resultado após isso confirmou muitas coisas para mim.

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Primeiro, David Fincher é um dos mais talentosos e versáteis diretores da atualidade. Já demonstrou isso em inúmeras películas nos últimos anos onde podemos destacar “Seven (1995), “The Fight Club (1999),”Zodiac (2007), “The Curious case of Benjamin Button”(2008), “The Social Network”(2010) e “The Gril with The Dragon Tattoo”(2011). Não é por menos que aos 08 anos já fazia filmes com a câmera amadora de seus pais.

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Segundo, porque David simplesmente desenvolveu uma forma de filmar, onde seu time é composto de peças únicas e que desenvolve suas funções de maneira agregadora, somando cada especificidade fílmica, de forma que a técnica é um dos pontos chaves de suas obras, demonstrando que ele possui controle e ciência do que exatamente deseja fazer.

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Terceiro, porque Fincher de forma inteligente e elegante nas escolhas desenvolve uma peça teatral sobre os teatros que circundam uma américa falida, hipócrita e totalmente manipulável.

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“Gone Girl – Garota Exemplar”(2014) é a adaptação cinematográfica do livro homônimo de Gyllian Flynn que responde pelo roteiro (primeiro ponto positivo) que de forma bastante equilibrada faz algumas alterações frente a história literária sem comprometer o resultado nas telas, ao contrário; potencializa e muito a história central.

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A história gira em torno do casamento dos sonhos de Nick (Ben Affleck) e Amy (Rosamund Pike) com direito a nuvem açucarada na madrugada, caça ao tesouro a cada aniversário de casamento e total entrega de ambos para compreender e ser esteio um do outro. Mas isso só no início. Ben constrói um Nick patético, totalmente desconectado e perfeito. Assim como Rosamund desenvolve uma Amy fantasmagórica, fria e incrivelmente louca. Duas escolhas perfeitas que conseguem criar um dueto na tela de tensões e esquizofrenias cotidianas de forma surpreendente.

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Junte a isso a montagem primoroso de Kirk Baxter que sutilmente mescla os tempos fílmicos em um só, com a ajuda do design de som e trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross que conseguem criar uma atmosfera fílmica imersiva e inacreditável. A fotografia conversa com a direção de arte, criando o mundo de Nick com tons frios e vazios e o de Amy cheio de calor e vida.

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David acerta mais uma vez e entrega ao publico mais uma versátil aula de como fazer cinema na atualidade. Nenhuma surpresa, caso “Gone Girl” figure na lista de melhores filmes do ano, além dos prêmios técnicos e de interpretação. Mais que merecido.

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Mau como o pica -pau – The Equalizer chega aos cinemas

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Estreia

 

Por Caroline Araújo

 

Com um objetivo claro em manter a atmosfera do seriado de TV The Equalizer; que fez sucesso nos Estados Unidos na década de 80, a adaptação ao cinema homônima que marca o reencontro do diretor Antoine Fuqua e do ator Denzel Washington 13 anos depois da parceria de sucesso que rendeu a Denzel o Oscar de melhor ator por “Dia de Treinamento”, chega aos cinemas carregada de clichês óbvios dos filmes de ação, mas cumprindo muito bem o papel de entreter o espectador.

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“THE EQUALIZER – O Protetor”(2014) apresenta para nós um Robert “Bob”McCall (Denzel Washington) , sujeito aparentemente comum que trabalha numa loja de departamentos; sempre prestativo com os colegas de trabalho, extremamente incentivador, uma espécie de conselheiro e amigo para todas as horas. Insone, frequenta a mesma lanchonete madrugada após madrugada para tomar um chá e tentar lendo seus livros, e assim, acaba ficando amigo de uma prostituta chamada Terry | Alina (Chöe Grace Moretz). Quando a garota sofre uma surra de seus cafetões que acaba mandando-a para UTI, Bob começa a revelar suas habilidades do passado e inicia uma guerra contra o crime organizado.

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McCall é quase um MacGyver no sentido de resolver qualquer situação por mais caótica que ela possa parecer e sem amarrotar a camisa, claro. Ele planeja a duração de suas ações e cronometra para comparar os tempos, o que endossa um lado divertido do personagem. Ele não hesita em fazer seus adversários sangrarem e mesmo que tome um tiro, facada ou porrada, ele mesmo faz seu curativo com mel quente, ferro quente ou que lhe aparecer na frente. Mau como pica – pau.

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Entretanto, o roteiro pouco inspirado acaba no lugar comum de mais do mesmo de histórias de homens “justiceiros” como Bob. A Escolha de Denzel é totalmente coerente e precisa. Ele constrói um personagens cujas origens são desconhecidas, é forte e se mantém indestrutível do começo ao fim feito uma máquina. O cuidado técnico é apurado, como a utilização do foco como recurso narrativo, enquadramentos nada óbvios e que auxiliam a história sem falar em seqüências inteiras que se iniciaram de pequenos detalhes.

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De certa forma, Fuqua promove uma fetichização da figura de Washington, criando uma espécie de super – herói – urbano que não faz nada extremado, é calmo, meticuloso e perfeccionista até mesmo quando esta descendo porrada nos bandidos. Enquadra nosso justiceiro de todas as formas, ângulos e velocidades de câmera possíveis reafirmando que “sou seu pior pesadelo”. Beijinho no ombro.

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O elenco de apoio funciona, o desenho de produção, as sequencias de ação são bem feitas e a trilha sonora fecham de forma bacana o conjunto, que mesmo comento alguns deslizes e não chegando perto do que foi a parceria de Fuqua e Denzel 13 anos atrás, vale e muito como entretenimento. Preparem a pipoca.

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O LABIRINTO SEM SAL

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em cartaz

Por Caroline Araújo

A avalanche de adaptações literárias, sobretudo, as aventuras fantásticas que ulularam na primeira década deste século, onde personagens extremamente jovens detinham o posto de destaque das películas que chegavam as telonas, deixou pouquíssimos espécies de narrativas surpreendentes. Na grande maioria, engrossaram apenas a coqueluche de se estabelecer novas franquias de filmes para aumentar a conta bancaria dos grandes estúdios.

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“MAZE RUNNER – Correr ou Morrer” dirigido pelo iniciante Wes Ball, chegou aos cinemas brazucas recentemente e entra para as estatísticas de um produto que poderia ter ido além, mas preferiu manter o papai mamãe usual. Trata-se da adaptação para o cinema do romance futurista de James Dasher, onde uma espécie de “garotos perdidos e desmemoriados” encontram um meio de sobreviver em uma clareira cercada de altíssimas muralhas que abrem e fecham todos os dias e dão passagem à um labirinto até então intransponível e indecifrável.

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A escolha narrativa peca. Tenta explorar o não desvelar dos fatos para criar uma conexão com o espectador tentando imprimir certa curiosidade, que no início, funciona. O cenário pós – apocalíptico remete aos recentes filmes juvenis em que de forma abrupta e aparentemente inexplicável jovens são obrigados a aprender a serem adultos em um formato de reality show de sobrevivência. Contudo, com o passar do filme e das ações que desenrolam, é inevitável perguntar porque diabos esses garotos continuam a viver ali, numa sociedade “paralela” sem de fato lutarem contra o bendito labirinto e vazarem para casa? É ai que nosso protagonista Thomas (Dylan O’Brien) acaba funcionando ( mesmo com ar de modelinho ator) inclusive como personagem dinâmico, trazendo a curiosidade para dentro da tela, mudando a estrutura daquela sociedade de garotos e provocando ações.

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Poderia ter surtido ótimos momentos, mas a falta de pegada da direção joga um balde de água fria em todo o processo. Dylan é um protagonista dedicado e se esforça para encabeçar a trumpe, mas não podemos dizer o mesmo dos demais garotos escalados, apáticos, chatos e que não convencem. A todo instante existe uma tentativa de passar certo terror ao espectador para que ele sinta o desconforto do ambiente hostil que se apresenta na tela, mas é muito aquém. As cenas de ação que deveriam ser o ponto chave para fisgar quem assisti, estão perdidas igual cego em tiroteio de efeitos visuais na escuridão noturna que o diretor imprimiu. O bendito “Maze”, o labirinto não é tão assustador, muito menos claustrofóbico ou colossal.

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Com o decorrer na narrativa, e os fatos sendo colados como um quebra cabeça, fica uma sensação de explicação, pois, por mais vasto e grandioso que as tomadas dos planos aéreos tentam mostrar que aquele pesadelo de fato era para esses garotos, é umbilical a relação do cenário com seus personagens, para que possamos entender o conflito que se encena; e sinceramente, a pimenta que dá o toque final no prato, fica faltando, pois não existe uma justificativa realmente palpável para esse mundo e essa tortura que foi mostrada. Apenas um novo espécime de filmes, que jogam as cartas para fazer continuações.