O valor do Silencio


573260

Indicação VOD ou Vídeo locadora

por Caroline Araújo

 

É inegável que o gênero de espionagem sofreu uma rotação gigantesca com a a trilogia do ex – agente secreto que perde a memória. Uma espécie de novo James Bond, só que, mais violento, com sangue nos olhos e sem tantas firulas inventivas ou “bond girls”. As mulheres também metem porrada. A trilogia Bourne foi sem duvida um dos maiores sucessos do inicio dos anos 2000, e era redonda, encerrando de forma precisa o arco do protagonista com a icônica imagem do personagem nadando no final de “O Ultimato Bourne”. Mas parece que, a onda de trilogias que não tem fim, acabou gerando o quarto filme baseado no desmemoriado “o Legado de Bourne” e que não foi bem recebido ou visto como os anteriores.

jason-bourne-gun

Entretanto, isso não intimidou Paul Greengrass, que muito mais experiente do que quando assumiu a direção em 2002 de “A Supremacia Bourne”, quase 10 anos após o ultimo filme da franquia, volta a direção e agora como co – roteirista no quinto filme que trás Matt Damon incorporando o agente mais procurado da CIA.

jason-bourne-gallery-06

Em “Jason Bourne”(2016) Matt Damon tem um total de 25 falas. Greengrass disse numa entrevista ao Guardian que já tinha consciência desse silêncio nos filmes anteriores; e, para ele o que define Bourne é a violência e as situações de ação. Mas o silencio é muito mais diegético. Ele expõe de forma languinar a inabilidade do personagem central em botar para fora seus traumas, angustias e motivações. Ao mesmo tempo, o silencio funciona como personagem, pois, a discussão que este quinto filme trás a tona perpassa por temas de anarcoativismo, excessos de vigilância e invasão de privacidade institucionalizada, onde, o silencio de um certo conformismo (ou seria um deixa disso) de grande parte da população, não cria um debate salutar sobre ( algo que a cada dia se torna mais urgente de debate). Quando na primeira aparição de Bourne se faz e vemos ele numa espécie de luta clandestina na fronteira de países no canfundó da Europa, é inevitável fazermos a comparação de como o tempo passou para esse cara.

view-3

É interessante ver como o roteiro pincela a panela de pressão que esta a geopolítica atual, quando, coloca a primeira perseguição de cenas de ação numa sequencia incrível em meio a um gigantesco protesto na Grécia. Esse tipo de escolha concede ao filme um realismo, criando um canal de conexão dos personagens fictícios com o mundo real. Essa conexão é extremamente sagas, pois ambientando essas ações reais dentro da ficção, vai descamando as abordagens sobre as questões de segurança, espionagem e a conectividade no mundo virtual, uma espécie de “vigilância líquida” onde todos e tudo são vigiados 24horas. – hoje o virtual é o caminho mais fácil para a própria espionagem e a própria internet e o hackerismo que combatem isso.

Jason Bourne (2016)

É curioso que Greengrass utiliza esse conceito de espionagem inclusive para saber como usar a câmera. Muita utilização de câmera livre, com objetivas longas, sempre a espreita e a procura de alguém como se; estive a observar o que ocorre. Nas cenas de ação que geralmente são frenéticas, neste filme conseguimos ter uma visão intensa e mais clara. Entretanto, a montagem, ficou um tanto enfadonha, monótona, tirando o ritmo que buscou-se criar. O roteiro também tem falhas, é uma espécie de “um fiapo da história que tenta-se fazer um outra história”. O que pode se esperar disso? Barrigas no arco dramatico, e uma atmosfera que vai até certo ponto e não diz à que veio.

jason-bourne-gallery-13

Alicia Vikander, interpreta Heather Lee, uma professional da CIA que tem uma penumbra dúbia, uma self – made woman, ambiciosa, determinada, mas ainda sim, meio perdida nas ações. Sua atuação é correta, dentro da amarração feita por Greengrass; mas tinha potencial para ser muito melhor.

jason_bourne_alicia_vikander

Eu acredito que o trunfo ( alguns não acharam) deste quinto filme Bourne é podermos ver nas nuances (sem falas) interpretativas e tão bem personificadas de Matt o envelhecimento do personagem. Algumas criticas colocaram que ele era um mero coadjuvante. Agora, se coloca no lugar dele. Sem memória, boa parte da sua vida adulta dos últimos 20 anos foi tentar descobrir quem é de verdade. Sem família, sem amigos, sem poder confiar de fato nem na sombra. Praticamente uma poeira cósmica. O silencio dessa alma perturbada é o maior grito de socorro que pode existir. A inexpressividade numa rinha humana lá no cafundó da fronteira da Europa, demonstra que tanto faz, morrer ou viver. Não sobrou nada além da não memória. Se pensarmos per esse prisma, Matt nos da um Bourne maduro, amargo e perfeito.

jason_bourne_infobox

Mesmo sendo um filme que não precisava ser feito, ele é um thriller de espionagem sólido, com uma boa fotografia e tratamentos sonoros bacanudos, vale uma pipoca, mas também demonstra as franquias que precisamos mais que fiapos de história para fazer continuações.

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s