TODOS TEM TALENTO

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OPINIÃO

por Caroline Araújo

 

“O que você quer que o público sinta? Se ele sente exatamente o que você queria durante todo o filme, Você fez o máximo que poderia fazer. O que será lembrado não será a edição, a câmera as atuações; ou mesmo o enredo. Mas como o público sentiu tudo isso.” (MURCH, Walter. Num piscar de olhos, p.29,1995)

 

O melodrama surgiu no contexto histórico da Revolução Francesa, e suplantou a tragédia como gênero dominante. Ao contrário do que apregoam alguns críticos, a ascensão do melodrama não marcou a decadência da tragédia, mas a perda da imaginação trágica pela sociedade. A queda da realeza e o apogeu da burguesia marcaram o final do século XVIII na França. O poder real era marcado por um controle rígido sobre a política e a economia – e também sobre a produção cultural do período. Consta que o número de teatros passou de vinte e três, em 1791, para quarenta e quatro, em 1830. Outro ponto é que o governo reconhecia apenas os teatros de gêneros tradicionais, como a tragédia, sendo o melodrama naquele momento ocupante apenas dos teatros secundários, menos prestigiados mas com a popularidade pulsante.

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Em que consiste, afinal, o melodrama? Basicamente, em opor duas forças – o Bem e o Mal -, sendo que o Bem sempre apresenta a sua superioridade. Esse maniqueísmo norteia uma sociedade sem parâmetros de autoridade e, portanto, sem bússola moral. A burguesia não havia ainda tomado a posição anterior retirada da realeza à força. O excesso define o gênero. Os relacionamentos humanos evidenciam sua presença no sentimentalismo exacerbado, como: na separação de pais e filhos; no reconhecimento da paternidade; na revelação póstuma da injustiça perpetrada aos pais falecidos, e na herança moral incutida na prole (seja essa herança benigna ou não) e nas histórias de amor que labutam para se tornarem reais. A afetividade familiar cabe bem ao melodrama, pois seu fácil reconhecimento não precisa de maiores explicações, e é de geral empatia pelos espectadores.

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A atual refilmagem de um dos enredos mais clássicos do cinema, a ascensão de uma jovem estrela que estava renegada ao anonimato, traduz exatamente os apontamentos de Murch quando paramos para não apenas assistir o filme, mas senti-lo em sua amplitude completa. A história de Nasce uma Estrela é clássica, porque para além de ser a quarta refilmagem ( 1937, 1954 e 1976) é a completa personificação em formato audiovisual do melodrama clássico ao apropriar-se de certa forma de um conto de fadas: A gata borralheira, príncipe encantado ( até certo ponto) e o felizes para sempre ( durou o quanto pode) estão postos e colocados estrategicamente para guiar o espectador por essa espécie de fantasia atual.

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Ally (Gaga) é uma jovem cujo talento musical não se discute. Vai apresentando sua arte nos espaços que consegue, e trabalha duro para sobreviver. Jackson Maine (Bradley Cooper) é o astro rei. Solar, dono de uma voz aguda, escaldante como o calor do Arizona. Contudo, o apogeu onde se encontra não basta. Na verdade, ele vai vivendo sem um foco de fato, no modo piloto e envolto a tudo que a fama e dinheiro podem proporcionar. É ai que entra o sulfúrico efeito etílico. E esse declínio de vícios é nosso antagonista. “Talento todos têm. A diferença está em quem tem algo a dizer”, Maine explica sobre o que define uma estrela. E exatamente isso que ele faz com Ally. Escuta o que ela tem a dizer e ilumina de certa forma a estrada de tijolos para que ela possa seguir em frente.

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O que difere o novo Nasce uma Estrela, de outras películas que orbitam de certa forma uma narrativa parecida, é a obediência quase que total ao apontamento de Murch. O sentimento, a emoção trabalhada no publico de maneira tão hábil, eleva o poder desse filme e faz com que os tropeços técnicos, furos de roteiro ou a estreia numa direção dessa envergadura, passem despercebidos. A força de Nasce uma Estrela se encontra  em dois pontos: 1) nas canções fortes e marcantes que estão durante todo o filme, inclusive os melhores momentos do filme são exatamente nessas ocasiões. Não é a toda que “Shallow” não sai da sua cabeça depois de ouvir.

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2) Na incrível química entre Gaga e Cooper que transcende  a tela. A direção de Cooper acertou em muitos momentos, como a escolha Lady Gaga, cuja presença trouxe nuances, acordes e um certo naturalismo quando o roteiro apropria-se de fatos da própria história da cantora para criar pontos de adesão a narrativa. Ele sabe que está contando uma história marcante de Hollywood e deu à obra essa elevação. Vemos isso também direção de fotografia de Matthew Libatique, quando ela capta o apelo da performance pela perspectiva de quem está no palco e também do público. O filme não apenas diz que seus protagonistas são estrelas, mostra. Cores e muito flair vão preenchendo a imagem de maneira gradativa e precisa. A direção musical, somada ao alcance da voz de Gaga e o talento inesperado de Cooper como cantor, elevam essa constatação: o filme é um espetáculo e exprime toda a emoção que dialoga com o espectador na poderosa trilha sonora. É no palco, durante as canções, ou nos diálogos íntimos, que o filme se sobressai. A entrega dos atores, onde os personagens se desenvolvem em pequenos momentos catárticos, seja no palco ou dentro de um carro. Tudo interligado que vai alimentado a carga do melodrama que se desenvolve. Nasce uma Estrela alude a algo bem real. Para uma estrela para entregar o novo, outro tem que aceitar o choque do velho: esse filme transforma essa transação em uma história de amor. Entretanto, existem algumas derrapadas do roteiro, que se, retiramos a potência musical, e se não tivéssemos a química de Cooper e Gaga, com certeza seria apenas mais um filme feito e pouco visto.

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As vastas indicações recebidas nessa temporada de premiações, Golden Globe, SAG, Critic Choice demonstram o quanto Copper acertou. É um bom filme. E absolutamente é uma história que pela força musical conseguiu tocar mais fundo do que se espera ao entrar nas retinas dos espectadores. E claro, dentre as indicações ao Oscar , aposto que leva de melhor música, sem sombra de dúvidas.

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