Sempre iniciantes

Opinião

Por Caroline Araújo

È assim que o amor nos faz sentir. Iniciantes. Muitas vezes, angustiados, aflitos, amedrontados. Ou tudo isso junto de uma vez. Acontece que não existe uma maneira centralista de ter controle de tudo para que as nossas escolhas e decisões sejam perfeitamente as que queremos, ou as que combinadas com o destino e o acaso supostamente seja aquilo que queremos.

Na verdade, o viver nos faz ser como locomotivas, sempre entre os trilhos e dormentes quentes, vibrando entre linhas paralelas que convergem em algum lugar no horizonte, que deve ser infinito, e a nós, locomotiva, cabe continuar a locomover como se isso nos fizesse encontrar perguntas e respostas e acima disso, conforto, no segundo seguinte que se chama futuro.

“Beginners – Todas as Formas de Amor”(2011) dirigido e roterizado por Mike Mills, consegue reunir 4 atores fantásticos – Ewan McGregor, no papel de Oliver Fields, um designer gráfico , incrível Christopher Plummer que interpreta o pai de Oliver – Hal, Mélanie Laurent que dá vida a Anna e Arthur o ator canino, claro!

Trabalhando a estória em dois tempos, antes e após a morte de Hal, de maneira simples e organizadora de puzzles, Mike segue desenhando imageticamente os desdobramentos dos relacionamentos, simples e cotidianamente. Assim como um dos ícones românticos do fim dos anos 90 “Antes do Sol nascer”, temos um americano e uma francesa que ao acaso, deixam-se encantar nas lagunas tristes que cada qual carrega em seus olhos perjuros.

Mas o trunfo real é Plummer que venceu o Oscar deste ano por essa atuação. Inspirado, leve, e ao mesmo tempo de uma densidade profunda. Após 40 anos de casado, aos 75 anos de idade, assumi ao filho e ao mundo ser gay. Não temos estigmas, muito menos bandeiras, Mike não faz defesa de situações. Apenas mostra, fatos e ligações, e o que, certas escolhas, empurradas por medos e pressões nos causam, e principalmente naqueles que nos circundam.

Bonito, tocante e fresco como borbulhas de champagne que explodem da mesma forma que fogos de artificio. Alias as imagens dos fogos, pontuais, são plásticas na efemeridade das memórias que elas emolduram dentro da vida de Oliver e Hal.

Uma preciosidade cinematográfica irretocável mesmo sendo um tanto lento em determinadas sequencia. Contudo, ele reflete exatamente a frase que utiliza no cartaz “This is What Love feels like” e na grande maioria de nós, também: Iniciantes. Sempre. Boa Sessão.

Quando um diretor faz toda a diferença – Oscar 2012

em Cartaz

por Caroline Araújo

Algumas vezes eu simplesmente me jogo em uma sala de cinema, sem saber nada sobre o que vou assistir. Isso é bacana, porque quando lemos, ouvimos ou pesquisamos sobre determinada obra, invariavelmente, assistimos um pouco com “os olhos de outrem”, não os nossos.Foi exatamente isso que fiz ao me colocar na fila para assistir ao mais recente trabalho do diretor norte – americano David Fincher, que após inteligentemente nos presentear com “The Social Network” que para mim, continua sendo o grande merecedor do Oscar de 2011, ele adentra o universo do suspense que tão habilmente trabalhou em “Seven” e “Zodiac”.

 

“The Girl with the Dragon Tatto – Millennium:Os Homens que Não Amavam as Mulheres”(2011) é um longa adaptado do famoso best-seller  suéco de Stieg Larsson, no qual Depois de ver a sua vida profissional andar para trás com um processo de difamação do qual saiu derrotado, Mikael Blomkvist (Daniel Craig) demite-se da revista Millennium onde trabalhava como jornalista e embarca numa viagem até ao norte da Suécia para reunir com Henrik Vanger (Christopher Plummer), um empresário reformado que decide recorrer aos seus préstimos para investigar o desaparecimento de uma jovem familiar. A princípio, Mikael mostra-se reservado e com pouca vontade de aceitar a proposta de Henrik.

Mas quando este lhe promete a cabeça de Wennerström (Ulf Friberg) – o homem que o processou por difamação –, Mikael sabe de imediato que não tem escolha senão fazer tudo o que Henrik quiser. Assim começa um processo de investigação às escondidas, que leva Mikael a tomar conhecimento de todos os podres de uma família de empresários verdadeiramente difícil de aturar.

Personagens fortes, mistérios e segredos de família compõem a trama articulada. Apesar dessa complexidade, há um tema que une todos os elementos: a violência contra as mulheres está sempre presente no enredo. Para manter-se fiel ao tema central, o filme traz cenas fortes, que ficarão na mente do espectador por um bom tempo depois de terminada a sessão.

 

A medida que vai descobrindo fatos, Mikael percebe que precisa de ajuda, é então que entra em cena a hacker punk Lisabeth Solander (Rooney Mara). A Lisabeth de Rooney parece um animal acuado, numa intrigante mistura de vulnerabilidade e agressividade, tendo uma excepcional atuação que rouba varias das cenas. Alias, desde o inicio nós conhecemos Lisabeth. Fincher ao mesmo tempo que nos apresenta Mikael, nos apresenta Solander. Mas ambos não se cruzaram fisicamente ainda. E as historias de cada um, caminham paralelas, até que elas inevitavelmente se chocam.

A força das imagens, cinza, fria e distante, a fotografia com a profundidade de campo característica de Jeff Cronenweth que já trabalhara com Fincher em “Fight Club” e “The Social Network” é linda! Movimentos elegantes e inteligente, como a trama é. Bem montado, com um trabalho sonoro fantástico, a cena que Mikael tem um saco de ar colocado na cabeça dificultando a respiração é magnifica, o trabalho sonoro ali, preciso como um bom bisturi.

Alias, falando em precisão, a violência também é e, em momentos necessários, sem termos nenhuma gota de sangue a mais. Vou a Lá!Steven Zaillian é quem assina o roteiro, o que apesar se ser bastante eficiente, poderia ter dito soluções mais diretas e certeiras. Fincher discorre de forma inteligentíssima, todos os elementos fílmicos, trazendo ao espectador, um filme forte, astuto, envolvente e marcante, na medida. Mas não faria isso sem Mara e sem Cronenweth.  A sequencia inicial de créditos já nos dá uma pista de que o ingresso vale cada centavinho e que as duas horas e meia vão voar na sua frente, embora concorde que os 10 minutos finais foram, digamos, desnecessários.

 

Não são todos diretores que conseguem proezas como essa. Fincher acerta mais uma vez. E a gente, senta e bate palmas. “The Girl With Dragon Tatto” recebeu  cinco indicações ao oscar Melhor Atriz para Rooney Mara, Melhor Fotografia, Melhor Edição, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som. Rooney não tem chances, mas mereceu a indicação e a partir de agora terá muitos holofotes em cima. Mas não me surpreendo se Cronenweth levar, já que ano passado foi indicado e não levou, embora este ano ele tenha que superar o mexicano Emmanuel Lubezki que concorre por “The Tree of Life”. Páreo Duríssimo!