O INEXORÁVEL TEMPO

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Opinião

Temporada de Premiações

Por Caroline Araújo

 

Tempo é a duração dos fatos, é o que determina os momentos, os períodos, as épocas, as horas, os dias, as semanas, os séculos. A noção em senso comum de tempo é inerente ao ser humano, visto que todos somos, em princípio, capazes de reconhecer e ordenar a ocorrência dos eventos percebidos pelos nossos sentidos. Contudo a ciência evidenciou várias vezes que nossos sentidos e percepções são mestres em nos enganar.  A passagem do século XIX para o XX marcou um novo enquadramento do homem dentro do espaço que o circundava. Temos “outro sujeito”, detectado por Baudelaire (1991) como um homem que vagueia cercado de espelhos, cercado de imagens. O homem de Baudelaire me remete a Belting e sua filosofia da Imagem:

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“A pessoa humana é naturalmente um lugar de imagens. Porque a pessoa humana é um organismo vivo. Acontece que a gente esquece as imagens. A gente as recebe, mas são efêmeras, pois elas desaparecem em nosso corpo, apesar de todo aparato tecnológico existem hoje. As imagens vêm e vão, tem um movimento vivo, pois nós somos um lugar privilegiado delas. O ser humano que falo, não é do ser humano de ponto de visto universal ou local, o humano aqui empregado e que o que nos torna diferente são as imagens que produzimos.” (BELTING, 2005, p. 65)

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O cinema recria a noção de tempo e espaço, além de estabelecer novos parâmetros na relação homem-máquina. “Como essa estranha máquina (cinematógrafo) de austeros cientistas virou uma máquina de contar estórias para enormes plateias, de geração em geração, durante já quase um século?” (BERNARDET, 1980, p.12).

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Quando pensamos nesses novos parâmetros de espaço tempo, Podemos considerar aqui, nesse contexto, o cinema, como à ideia de um código que vai além de seus limites pré-estabelecidos para se expressar, esgarçando suas possibilidades através do desenvolvimento da experimentação, do incorporar de novas referências e novas materialidades, “de adotar os mais diversos procedimentos em seu fazer, enfim, da possibilidade de se lançar mão de especificidades próprias de diferentes meios para viabilizar uma ideia” (YOUNGBLOOD, 1970, p.41-42) ou ideias.

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E é isso que Denis Villeneuve faz com o espectador, ao abordar de forma “esgarçada” a noção de temporalidade dentro de um plot twist surpreendente em seu mais novo filme, o fantástico “ARRIVAL – A Chegada”(2016). Em 2010 quando Denis começou a chamar a atenção mundial com seu “Incêndios”, adaptado da peça teatral destruidora de Wajdj Mouawad ele lançou uma pedra de fundamento do que seria seu trabalho. “Incêndios” para mim, figura como um dos filmes mais dolorosos e ao mesmo instante, fabuloso que já vi (postei a crítica em 2011 sobre). Curiosamente seu protagonista era uma mulher. Em 2015 em “SICARIO”, outra vez mais um filme forte, não como “Incêndios”, mas com uma protagonista a altura. Com “ARRIVAL”, Denis cria uma obra – prima da cinematografia mundial e permite que Amy Admas simplesmente ensurdeça a tela com uma performance profundamente bela em um dos melhores papéis femininos dos últimos tempos.

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Uma das marcas de Villeneuve é abordar de maneira inteligente várias temáticas, sem ser didático, permitindo que o espectador tenha uma digestão visual lenta, e ao mesmo tempo, deixando muita coisa para ser discutida e interpretada ao fim da sessão. Sempre sóbrio nas escolhas, uma apuro técnico como poucos, assim como outro super diretor Damien Chazelle; nenhuma escolha esta na tela por acaso. Foram pensadas, estrategicamente abordadas e costuradas com uma capacidade ímpar de direção de atores.

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“ARRIVAL” é mais que uma ficção científica. Muito mais. Alias, essa classificação, para mim, não convém. O mote da propalada invasão alienígena é apenas um catalisador de situações que vão criar o substrato para que o roteiro habilmente escrito de Eric Heisserer.

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Amy é Dra. Louise Banks, uma linguista recrutada pelo exercito americano para tentar estabelecer contato com os alienígenas que aportaram em uma Nave em forma de concha em Montana e em outras 11 localidade ao redor do globo. Com uma mensagem para alguns utópica e otimista de união mundial, consegue imprimir tensão na reação humana ao desconhecido inesperado de forma fantástica.

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Utilizando dentro da linha de montagem os bem inseridos “falshbacks” que mais tarde torna-se outra coisa, a fotografia de Bradford Young intensifica a tensão dramática existente em super close claustrofóbicos, câmeras fechadíssimas, criando uma “palíndromo” metalinguístico de imagem, “não apenas para provocar o espectador, mas também para despertar sua inteligência crítica” (STAM, 1981, p.23). Alguns plano claramente espelhados em obras de Terrence Malick, são surpresas a parte.

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A infraestrutura narrativa, é o próprio plot twist da história em si. Quando, somos jogados na informação de que a barreira linguística de Banks remete a compreensão do tempo em quanto algo cíclico e inexorável, o filme se reestrutura em nossas mentes. Não dá para classificar, o presente – passado e futuro, senão a própria representação das escritas que Banks tenta desvelar. E Denis, em metáfora elíptica apresenta os conceitos em blocos soltos que a medida que nos aproximamos do fim, conseguimos preencher as lacunas. “Imagens são mediações entre homem e mundo. O homem “existe”, isto é, o mundo não lhe é acessível imediatamente. Imagens têm o propósito de representar o mundo. Mas, ao fazê-lo, entrepõem-se entre mundo e homem. Seu propósito é serem mapas do mundo, mas passam a serem biombos. O homem, ao invés de se servir das imagens em função do mundo, passa a viver em função de imagens” (FLUSSER, 1983. P.7).

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Elegante, dolorido, profundo. Um parto. Talvez exatamente por se assemelhar a um parto, para mim, tenha sido tão intenso. Senti as angustias, medos e duvidas de Banks. Senti sua dor. Senti que seu coração. O tempo, nos atravessa. Nos muda. Transforma. Merecedor de cada indicação, e fortíssimo candidato a melhor filme do ano.

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Estrelas Negras

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opinião

POR CAROLINE ARAÚJO

 

Todo ano temos filmes que estruturam suas forças narrativas em algumas bandeiras que por muitas décadas figuravam como tabus sociais. Mesmo tendo avançado em questões tecnológicas, socialmente o mundo parece mais arcaico que outrora. Implosões étnicas afloram feito larvas, carcomendo avanços sociais de lutas onde muito sucumbiram, sem perder a ternura, claro.

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“HIDDEN FIGURES – Estrelas Além do Tempo”(2016) dirigido por Theodore Melfi que também assina o roteiro, narra a história verídica de três mulheres negras, com três mentes igualmente incríveis, que em plena corrida espacial ocorrida na décadas de 50 e 60, trabalham na NASA. Nessa época, a Agência Espacial Americana tinha os chamados “computadores humanos”, mulheres negras que eram contratadas para fazerem os cálculos e análises de trajetórias.

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De maneira direta e sem muitos floreios ( o que vejo como ponto positivo) o filme foca a história de três dessas mulheres que fizeram a diferença, venceram preconceitos e hoje são reconhecidas pelos seus feitos: Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer) e Mary Jackson (Janelle Monáe). Desde o início percebemos que a cereja do bolo no formato dramático adotado para contar a história é um foco em Johnson, mas com o desenvolvimento da narrativa, Vaughan e Jackson ganham amplitude, e , cada trajetória agrega um olhar diferente e que completa a trama como um todo.

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O mais bonito de se ver, são as atuações dessas três pérolas negras. Lindas, fortes, precisas. O elenco de apoio, também conta com bons nomes como Kevin Costner que ao personificar uma espécie de “mentor” para a personagem de Taraji P. Henson, como o diretor da NASA Al Harrison. Os diálogos entre os dois são as melhores do filme ao mostrarem toda a diferença de oportunidade entre ambos – um homem branco e uma mulher negra – apesar da paixão em comum pelos números.

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Kirsten Dunst com sua cara de nojinho peculiar é irritante ao extremo ( de um jeito positivo). Vemos claramente em suas ações o tamanho do preconceito velado e hipócrita existente naquela época.

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Não é um filme denso, não levanta bandeira social, apenas mostra. O que é melhor: não faz dessas mulheres extraordinárias vítimas desse preconceito nefasto. O foco é o fato de que a cada derrota, a cada puxada de tapete que seja, elas levantavam, educadas, fortes e potentes. Muito mais habilidosas e inteligentes que muitos brancos em seu tempo, fossem homens ou mulheres.

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Percebam como é tênue a linha que “Hidden Figure”s transitou. Um filme sobre mulheres trabalhando na NASA. Mulheres NEGRAS. Mulheres que mudaram a história e que por mais de 50 anos tiverem suas historias sem o conhecimento do mundo. Ou seja, a sociedade continua tacanha como outrora.

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Henson e Spencer foram nomeadas ao Oscar e concorrem no próximo dia 26 de fevereiro. O brilho de suas performaces, a vivencia de suas personagens, são absolutamente a força desse filme. Elas não abaixam, só crescem, e crescem a medida que suas personas vão ganhando força na história, quebrando amarras e mostrando o que elas tem de melhor. Theodore Melfi nos brindo com uma belíssima e poderosa história, dessas que faz bem assistir.

CITY OF STARS

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Em cartaz   e Aposta de Prêmios

Por Caroline Araújo

 

Quando os irmãos Lumiére abriram ao mundo as portas da imagem movimento, ha pouco mais de 100 anos, sem querer querendo, além da extraordinária possibilidade de documentação da realidade, eles deram asas à um mundo extraordinário do encantamento. De maneira “mágica”; compreender as engrenagens de como capturava as imagens em seus movimentos reais tornou-se obsessão de muitos artistas e cientistas ao redor do mundo. E essa obsessão levou gradativamente que cada avanço rumo ao controle da realidade intrínseca daquele espaço tempo gravado numa película, criassem eras. O cinema aos poucos torna-se espetáculo. Uma fração de tempo onde simplesmente ia se assistir algo que acalentava “a alma.

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Após os primeiros 30 anos do surgimento do cinema em 1927, aparece o primeiro filme com trilha Sonora sincronizada e, não por acaso, tratava-se de um musical: “The Jazz Singer”. Imediatamente os produtores perceberam quão rentável era este novo gênero fílmico, e os investimentos crescem e aparecem. A chamada era de ouro dos musicais iniciou-se logo após a II Guerra Mundial e foi até os primeiros anos da década de 1960. O mundo todo mudando, e o interesse no gênero diminui significativamente. Contudo, passava alguns anos, um director, ou produtor, acabava por trazer um novo musical, como “Molin Rouge”, “Cabaret”, “Nine”, “Chicago”, apenas para citar alguns mais recentes. Todos com o grande ardor de extrair de seus atores atuações vibrantes e criar trilhas sonoras que geravam desdobramentos de dividendos posteriormente.

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Então, chegamos ao ponto em que com certeza você já deve ter ouvido todos os elogios possíveis para La La Land: Cantando Estações (2016) novo filme do menino prodígio Damien Chazelle  do eleogiado Whiplash: Em Busca da Perfeição”(2014) e que tem apenas 31 anos. Mesmo que você não seja um apreciador de filmes desse gênero, é impossível ficar impávido com uma impressionante sequência em uma rodovia em direção a Los Angeles. Centenas de carros travados em um dos engarrafamentos tão comuns à cidade. Aos poucos, jovens começam a deixar os veículos e cantar. Percebemos que se tratam de aspirantes a artistas que peregrinam do mundo todo em direção ao sonho de una carreira na Meca do cinema. Chazelle cala quem achou que ele estava louco ao entrar nessa empreitada. Cria uma sequencia estonteante, marcada, ensolarada e vibrante, com imperceptíveis cortes, em uma sequencia sem interrupção tão absurda e linda. De forma honesta “La la Land” nos conduz aos bastidores da indústria cinematográfica. Metalinguagem derramando na tela.

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A história criada por Chazelle é simples ( sim ele também escreveu!!), mas o roteiro é complexo – assim como em Whiplash. A estrutura de boy meets girl, , é a adotada pelo cineasta, mas são nos diálogos onde o filme ganha verdadeiramente vida. O frescor com que Chazelle conta esta história, utilizando-se do respaldo de todos os envolvidos, faz toda a diferença para o êxito do conjunto todo. As cores que o figurino explora tão habilmente, a direção de arte milimétrica, criam uma atmosfera de fantasia, como conto de fadas. Pessoas apaixonadas, a hesitação do primeiro beijo, tão envolvidas que chegam a flutuar no ar, cantam e sapateiam como se a vida fosse assim. Mas mesmo todo esse amor que vai numa crescente estação a estação, possui o contraste de situações corriqueiras, que trazem tanto a doçura quanto o amargor em um timming tão fantástico que somos tocados por essa bela história de amor.

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Ryan Gosling e Emma Stone. São lindos. Buscam os seus lugares ao sol. Um pianista purista de jazze uma aspirante a atriz que trabalha de barista na Warner bros. São tão cheios de sonhos que é justamente a energia desses sonhos que cria a sinergia que os impulsiona a irem além.

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Ryan é Sebastian, e o diretor utiliza a trajetória da personagem fiel artisticamente ao que o jazz significa para ele, para levantar a eterna discussão, do que é vendável, do que é legítimo artisticamente, do que é apreciado, se torna um dos temas pulsantes do roteiro. Gosling empresta seu semblante de cachorro caído da mudança de forma espetacular. Cantar, dançar e interpretar como o faz é um esforço audaz e percebemos isso no tom de seu personagem. Forte candidato ao Oscar deste ano.

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Stone é Mia. É nas decepções da personagem que a atriz se abre verdadeiramente, e podemos ver o paralelo entre ficção e realidade, já que Stone também abandonou tudo e se mudou para Hollywood buscando o estrelato e provavelmente passou por situações semelhantes as de Mia. Ela brilha tão efusivamente que seus olhos são duas gemas cheias de sentimento nos longos planos de close up que somos brindados. Stone acaba de ganhar o SAG e se torna a principal aposta para o Oscar.

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Chazelle procurou recriar planos e cenas que se tornaram memoráveis em grandes musicais do passado, produzindo uma obra prima que é uma ode a Los Angeles, a cidade dos sonhos. O filme emprega imagens do passado da cidade, registrada nos muros e fachadas de Hollywood, nos cartazes e outdoors. Em um travelling logo no inicio (lindíssimo devo dizer) quando Mia caminha para casa, ao passar por uma parede onde vemos ícones de personagens pintados a câmera distancia ao compasso da musica que chama a tenção de Mia e a faz entrar e em fim, encontrar o triste pianista a se apresentar.

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A montagem é um primor a parte. Dinâmica, para lá de poética, cada gesto dos atores é milimetricamente calculado o que demonstra que Chazelle usa TODOS os elementos técnicos do cinema a favor da sua história e com muita maestria.

E a montagem tem outro timming em conjunto com a primorosa trilha sonora. O Tema de Seb`s e Mia ecoa na mente. Doce, triste e brilhante. Embarga a garganta. O Jazz agradece o spotlight e, o público, o deleite auditivo.

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A trajetória da atmosfera dramática contada por meio das estações do ano, guarda os subtextos de questões que o próprio Chazelle abordou em Whiplash, como a colisão da vida profissional e a vida pessoal, como se fosse impossível que ambas possam coexistir. O mundo cínico que o diretor cria não é nem frio, nem quente, pois temos o arrependimento do que poderia ter sido como uma de suas conclusões.

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Alias, a sequencia final, que mostra justamente isso foi um soco no meu estomago. Senti meus olhos marejarem, pois eu senti o rebobinar de Mia ser meu e tenho certeza que muitos também assim o sentiram. Quantas e quantas vezes ao nos deparar numa escolha, ou num futuro, encarar algo do passado, não somos envoltos numa saudosa tristeza do “ e se” ? As lágrimas inundaram silenciosamente a minha alma.

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Feito com um primor, “La la Land” é uma celebração ao cinema, e sim, ao amor. Aqueles possíveis. Aqueles que escolhemos. Aqueles que não temos nos braços, mas que vamos amar enquanto respiramos. Deixem o coração de vocês serem invadidos pelo deleite visual e auditivo ( enquanto escrevo ouço a trilha no youtube para ajudar nas lembranças afetivas). E sim, “La la Land” é o filme que precisávamos ha um bom tempo. As indicações e os prêmios que vem abocanhando só coroam essa trajetória esfuziante. Que bom que veio. Corram para os cinemas com um grande balde de pipocas e uma caixa de lenços. Faz tempo que não fica tão feliz em sair de uma sessão. =)

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O valor do Silencio

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por Caroline Araújo

 

É inegável que o gênero de espionagem sofreu uma rotação gigantesca com a a trilogia do ex – agente secreto que perde a memória. Uma espécie de novo James Bond, só que, mais violento, com sangue nos olhos e sem tantas firulas inventivas ou “bond girls”. As mulheres também metem porrada. A trilogia Bourne foi sem duvida um dos maiores sucessos do inicio dos anos 2000, e era redonda, encerrando de forma precisa o arco do protagonista com a icônica imagem do personagem nadando no final de “O Ultimato Bourne”. Mas parece que, a onda de trilogias que não tem fim, acabou gerando o quarto filme baseado no desmemoriado “o Legado de Bourne” e que não foi bem recebido ou visto como os anteriores.

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Entretanto, isso não intimidou Paul Greengrass, que muito mais experiente do que quando assumiu a direção em 2002 de “A Supremacia Bourne”, quase 10 anos após o ultimo filme da franquia, volta a direção e agora como co – roteirista no quinto filme que trás Matt Damon incorporando o agente mais procurado da CIA.

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Em “Jason Bourne”(2016) Matt Damon tem um total de 25 falas. Greengrass disse numa entrevista ao Guardian que já tinha consciência desse silêncio nos filmes anteriores; e, para ele o que define Bourne é a violência e as situações de ação. Mas o silencio é muito mais diegético. Ele expõe de forma languinar a inabilidade do personagem central em botar para fora seus traumas, angustias e motivações. Ao mesmo tempo, o silencio funciona como personagem, pois, a discussão que este quinto filme trás a tona perpassa por temas de anarcoativismo, excessos de vigilância e invasão de privacidade institucionalizada, onde, o silencio de um certo conformismo (ou seria um deixa disso) de grande parte da população, não cria um debate salutar sobre ( algo que a cada dia se torna mais urgente de debate). Quando na primeira aparição de Bourne se faz e vemos ele numa espécie de luta clandestina na fronteira de países no canfundó da Europa, é inevitável fazermos a comparação de como o tempo passou para esse cara.

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É interessante ver como o roteiro pincela a panela de pressão que esta a geopolítica atual, quando, coloca a primeira perseguição de cenas de ação numa sequencia incrível em meio a um gigantesco protesto na Grécia. Esse tipo de escolha concede ao filme um realismo, criando um canal de conexão dos personagens fictícios com o mundo real. Essa conexão é extremamente sagas, pois ambientando essas ações reais dentro da ficção, vai descamando as abordagens sobre as questões de segurança, espionagem e a conectividade no mundo virtual, uma espécie de “vigilância líquida” onde todos e tudo são vigiados 24horas. – hoje o virtual é o caminho mais fácil para a própria espionagem e a própria internet e o hackerismo que combatem isso.

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É curioso que Greengrass utiliza esse conceito de espionagem inclusive para saber como usar a câmera. Muita utilização de câmera livre, com objetivas longas, sempre a espreita e a procura de alguém como se; estive a observar o que ocorre. Nas cenas de ação que geralmente são frenéticas, neste filme conseguimos ter uma visão intensa e mais clara. Entretanto, a montagem, ficou um tanto enfadonha, monótona, tirando o ritmo que buscou-se criar. O roteiro também tem falhas, é uma espécie de “um fiapo da história que tenta-se fazer um outra história”. O que pode se esperar disso? Barrigas no arco dramatico, e uma atmosfera que vai até certo ponto e não diz à que veio.

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Alicia Vikander, interpreta Heather Lee, uma professional da CIA que tem uma penumbra dúbia, uma self – made woman, ambiciosa, determinada, mas ainda sim, meio perdida nas ações. Sua atuação é correta, dentro da amarração feita por Greengrass; mas tinha potencial para ser muito melhor.

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Eu acredito que o trunfo ( alguns não acharam) deste quinto filme Bourne é podermos ver nas nuances (sem falas) interpretativas e tão bem personificadas de Matt o envelhecimento do personagem. Algumas criticas colocaram que ele era um mero coadjuvante. Agora, se coloca no lugar dele. Sem memória, boa parte da sua vida adulta dos últimos 20 anos foi tentar descobrir quem é de verdade. Sem família, sem amigos, sem poder confiar de fato nem na sombra. Praticamente uma poeira cósmica. O silencio dessa alma perturbada é o maior grito de socorro que pode existir. A inexpressividade numa rinha humana lá no cafundó da fronteira da Europa, demonstra que tanto faz, morrer ou viver. Não sobrou nada além da não memória. Se pensarmos per esse prisma, Matt nos da um Bourne maduro, amargo e perfeito.

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Mesmo sendo um filme que não precisava ser feito, ele é um thriller de espionagem sólido, com uma boa fotografia e tratamentos sonoros bacanudos, vale uma pipoca, mas também demonstra as franquias que precisamos mais que fiapos de história para fazer continuações.

 

 

 

SPOTLIGHT no SPOTLIGHT

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SPOTLIGHT no SPOTLIGHT

 

OPINIÃO

 

POR CAROLINE ARAÚJO

 

Nesse turbilhão de arrasa quarteirão e franquias infindáveis que virou “tendência” no cinemão comercial mundial, quando um filme onde praticamente a orbita dramática circunda uma mesma locação e você tem diálogos cheios de tensões e interpretações; você entende o que D. W. Griffith fez ao colocar o close up em “The Birth of Nation” (1915). Contudo, quando em dias atuais nos esbarramos em filmes de textões e cheios de jornalistas, parece que estamos em 1970, no auge das produções de dramas investigativos jornalísticos que bombaram naquela década.

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“Spotlight – Segredos Revelados”(2015) é o refresco para a memória de que mesmo na contemporaneidade dos super estímulos da audiência, uma boa ideia cuja estruturação nevrálgica centre na tessitura de um roteiro profundo e muito bem arrematado, garante a atenção do espectador tanto quanto um show de pirotecnia. E com um adendo: será um filme que não morre em si, mas, reverbera, tem desdobramentos sociais, transborda o signo fílmico e produz um devir cinema.

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Seguindo o convencional de uma narrativa linear, Tom McCarthy conduz o publico nessa caçada da verdade, colocando bloco a bloco a construção de uma curva narrativa ascendente que absolutamente vai nos levar as nossas inquietações. Baseado em uma história real – que deu origem ao livro, vencedor do Pulitzer –, escrito pelo mesmo time que participou da apuração do caso que chocou o mundo sobre a série de relatos de pedofilia praticados por membros da Igreja Católica na cidade de Boston – EUA, a película posiciona o espectador dentro da redação e nas ruas, desvelando os fatos e se perguntando tao qual os jornalistas na tela “como puderam acobertar tudo isso?

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A atmosfera de bastidores da notícia inebria. Temos múltiplos protagonistas, cada qual com seu ponto de visão e seu peso somando ao tom que o arco dramático necessita. Não temos floreios, temos realismos. A direção de arte recriou um 2001 tão perfeito, que só nos damos conta de que faz tanto tempo, quando vemos as coisas “obsoletas” ou ultrapassadas na tela.

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É inevitável a comparação com o clássico “Todos os Homens do Presidente”, e Tom não nega a influencia. E nem precisa. É sóbrio nas escolhas da direção e soube abrilhantar o elenco peso pesado que tinha em mãos. Como uma orquestra afinadíssima, Michael Keaton, Rachael MacAdams, Liev Schreiber, Stanley Tucci e Billy Crudup fazem uma festa de interpretação de encher os olhos. Eles vestiam de jornalistas tão realisticamente que foi impressionante. Mark Ruffalo é um caso a parte. Seu jornalista apaixonado é outra excelente atuação cheia de vida e que lhe rendem criticas merecidas. Além das indicações nas maiores premiações.

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Com uma opção simples para construção dos enquadramentos e movimentos de câmera, Tom grita em alto e bom som a verve de seu filme: MENOS É SEMPRE MAIS. Menos firulas, Mais História. Menos efeitos desnecessários, Mais Brilhantes atuações. E por ai vai. Mas nem por isso temos uma fotografia ruim. Pelo contrário. A cor impressa na imagem tem um leve desbotar, como se, o frio de Boston tocasse a tela. Ou a perda da inocência de milhares de crianças que foram molestadas, desfalecesse a cor da imagem. É sutil. Mas é lindo.

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No fim, temos um filme sobre os homens, seus pecados e o castigo.

ESTA É UMA TERRA DE LOBOS

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OPINIÃO

 

POR CAROLINE ARAÚJO

 

 

A arquitetura dramática de um filme deriva do tom de direção. Dennis Villeneuve, vem gradualmente ganhando espaço na safra de diretores contemporâneos que sabem exatamente a tensão a qual desejam levar seus espectadores. Sua fama tem lógica comprovada. Basta assistir “Incendios”, indicado aos Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011 ( eu revejo as cenas desse filme vez ou outra na mente) e “Os Suspeitos” com Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal.

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Dennis não foge as suas origens ao assinar a direção de “SICARIO” (2015), realismo e ótimas atuações são armas na mão desse diretor para transformar a película num interessante filme sobre crime. Contudo, mesmo com a brilhante e enervante construção do clima tenso necessário à história, o roteiro do estreante Taylor Sheridan não corroborou para que o produto final tivesse um brilho esfuziante.

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Moralidade e ambiguidade são palavras de ordem para Dennis que as coloca como diretrizes nos planos fotográficos, produzindo imagens marcadas e crispadas do celebrado diretor de fotografia Roger Deakins. Dessa forma, sem que percebemos somos desestabilizados, incomodados, e tudo na mais perfeita intenção da direção.

A história nos trás a agente do FBI Kate Macer, incrivelmente interpretada por Emily Blunt. Macer é usada pela CIA como forma a legalizar as ações ilegais da agencia no território norte – americano na caçada perdigueira ao cartel mexicano que esta lavando a égua nas terras do tio San. Macer se encontra literalmente no meio de uma guerra de atrito, tanto CIA quanto Cartel usam terror e selvageria como tática para justificar seus fins; algo que vai totalmente ao oposto do que Kate acredita ser correto. Nessa teia maquiavélica, os fins estão sempre justificando os meios, e assim, temos o núcleo de toda tensão fílmica.

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Contudo, vale ressaltar que “SICARIO” esbarra num ponto. A superficialidade das ações. Dennis trabalha habilmente como lhe é corriqueiro a imersão do espectador dentro desse ambiente tenso de crimes, nos coloca como baratas tonas tais quais a agente Macer por ir dando “pistas” do que esta acontecendo e do que pode acontecer e isso nos prende, até um momento. Porque ficamos empatados numa questão de entender melhor. Ninguém curte ficar as cegas. E quando chegamos no derradeiro desvelar, percebemos que todos os dispositivos trabalhados nos levam a falta de profundidade do texto, onde temos mexicanos retratados como capangas, tais quais filmes genéricos de ação executam.

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E a questão dos abusos de poder cometidos pelo americanos para justificar suas ações de limpeza da criminalidade soa de forma sarcástica na interpretação – ótima vale ressaltar – de Josh Brolin como líder desse esquadrão de faxina.

Benício Del Toro chama atenção pela sorumbática interpretação. Um misto de mistério e tensão (sim tensão é palavra de ordem nesse filme) fazem com que seu personagem, Alejandro, conduza a investigação por parte do publico para esperarmos até o final onde é que aquilo que estamos assistindo vai chegar. Del Toro como sempre tem um tom preciso. Na verdade, ao fim entendemos que ele é a personificação do SICARIO, por assim dizer. “Esta é uma terra de lobos” ele afirma. E ele é o super lobo.

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“SICARIO” é um bom filme, com certeza. Tecnicamente bem feito, bem interpretado e bem dirigido, entretanto; as falhas de roteiro fazem com que o filme, que tanto fala da dubiedade moral nos Estados Unidos, também assuma uma postura questionável perante o próprio universo que apresenta, como se ele próprio também tivesse algo a mascarar. Mas vale um bom balde de pipoca. =)

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Presente de natal para a geração de 30 anos. Entre no mundo de TRON.

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Opinião

por Caroline Araújo

Quando me coloquei no caminho do cinema, ao mesmo tempo, comecei a imaginar o passado. Lembrei de várias tardes prostrada na frete da TV assistindo sessão da tarde. Visualizei algumas madrugadas nas quais ficava sentada no banco da praçinha em frente a casa da avó na Vila Xavier em Araraquara – S.P, discutindo sobre filmes com meu tio André. Entoei algumas canções que fizeram parte da minha infância tão saudosa na década de oitenta.

Ao chegar ao cinema eu estava literalmente embalada para entrar naquela sala de projeções e deixar-me na atmosférica nostálgica regada por um trilha sonora que já dava pista no trilher.

TRON: The Legacy – TRON: O Legado” (2010) dirigido por Joseph Kosinsk é um sopro de nostalgia sobre algumas gerações criadas à sombra deixada pelo filme original “TRON” de 1982, cujo o cerne conceitual estava muito à frente de deu tempo quase três décadas atrás.

É impossível não ter comparação com o filme de oitenta. Mas falo isso no bom sentido. As luzes, as roubas emblemáticas, a trilha que simplesmente transcende o que foi os anos oitenta, a tênue linha limítrofe entre a virtualidade e o real, e claro Jeff Bridges. Rever Jeff tão novinho, mesmo que totalmente feito por computadores foi incrível.

TRON: O legado, passa exatamente 20 ano depois do sumiço misterioso de Kevin Flynn, o gênio da computação criador do jogo TRON que dá nome a saga de 82. Seu filho Sam (Garrett Heldlund sem carisma algum), cresce detendo a mesma genialidade do pai, porém regada a boas doses de improbabilidade administrativa, nunca tendo interesse em tocar a empresa deixada à ele pelo progenitor.

Depois que Allan, Fiel escudeiro e amigo de Flynn pai, procura Sam para novamente frisar que acredita que seu pai não morreu e lhe entregar a chave do famigerado fliperama que Kevin possuía; a trilha de pães de João e Maria levam Flynn filho direto para a GRID e o mundo virtual inteiramente criado por seu pai e no qual este ficara prisioneiro todo este tempo.

Desse ponto em questão, iniciamos uma viagem visual belíssima, muito bem dirigida, com uma direção de arte fantástica e estupidamente bem pensada, não negando em nada a origem de toda essa história nos idos anos oitenta. Pelo contrário , credito a Kosinsk a ótima jogada de simplesmente pegar o que fora feito em 1982 e melhorar no que tange a computação gráfica e brindar aos espectadores com cenas bacanérrimas de ação, como a corrida de motos de luz, ou as lutas com discos. Ual!

Os fãs de TRON não ficaram desapontados, mas ainda sim a saga original é superior a esta continuação. A Trilha de Daft Punk nos leva à um túnel sensorial atemporal incrível. Jeff Bridges é preciso. Sua aparição como Kevin sênior , cansado, conformado em partes com seu destino é madura.

O decorrer da história, a tentativa de Sam de voltar ao mundo real trazendo seu pai, e a forma como eles precisam agir para isso acontecer é o que move todo o restante da película. Não esquecendo claro, do personagem dinâmico à tira colo , a bela Olivia Wilde.

O Universo de TRON sempre foi uma história instigante, como se fosse uma mensagem do futuro para a geração pós verve psicodélica de 1970. As questões tecnológicas abordadas que pareciam impossíveis em 1982 hoje são realidades e usuais no dia a dia.

TRON: O legado é uma boa experiência sensorial, muito alinhada com as viagens propiciadas por alguns gamers. Você não percebe os 127 minutos de projeção voarem. Sem contar que o filme bebe MUITO em outra história Cult – STAR WARS – para amarrar algumas cenas.O final naquela ponte suspensa, entre criador e criatura foi muito Star wars. Somando à isso a roupa de Obbi Wan que Kevin Flynn usa.

Aos que puderem assistir o filme de 1982 antes de embarcarem nessa viagem oitentista, fica a dica. Aos que não, fica a certeza de que o filme agrada várias faixas etárias e grupos de amigos. E aos mais entoados no discutir questões filosóficas, boas dose de cafés da madrugada e discussões infinitas. Na verdade, eu queria mesmo era uma moto daquelas. Rs…