As diversas peles do existir

Opinião

Por Caroline Araújo

Demorei um pouco para digerir. Não o que assisti, mas sim, o que fui levada a refletir após a saída da sessão. Pedro Almodóvar a cada filme aproxima-se mais de seus conterrâneos e principal inspirador, o cineasta Luis Buñuel. É impossível sair impávido, intocado, ou não se contaminar pela densidade das imagens que tão fortemente nos é construída.

“ La Piel que Habito – A pele que Habito”(2011) o mais recente trabalho de Pedro, nos trás seu “muso” Antonio Banderas como um cirurgião plástico como um tipo de dr. Frankeinstein, que após perder sua amada esposa em um acidente que queimo-a inteira, envereda na busca de experiências que possam leva-lo à “pele perfeita” que poderia tê-la salvo.

Sem escrúpulos, sem pudor, uma espécie de Dr. Louco dos clássicos filmes do passado, Almodóvar elegantemente trabalha a metáfora da pele que habitamos em cada fresta da película que esculpe.

Denso. Tenso. Eloquentemente envolvente. Personagens moralmente ambíguos, numa atmosfera noir, percebemos a potencia do cinema de Almodóvar e sua sagacidade em trabalhar o melodrama puro, de formas diversas criando uma das mais fascinantes filmografias atuais. Ódio, amor, loucura, ética, vingança, tudo junto num caldeirão a lá Espanha, quente de cores, luminoso nos olhares. Principalmente nos olhos amendoados da bela atriz espanhola Elena Anaya que consegue inebriar o espectador com sua inspirada interpretação.

Baseado no livro Tarantula do escritor francês Thierry Jonquet, camada a camada temos um filme de terror, sem gritos e sem sustos, mas que inquieta, asfixia, não se digeri. Assim como a lâmina do “Um Cão Andaluz” de Buñuel, a lâmina de Almodóvar, estilhaça, esquarteja e cria um sincretismo, das coisas que estão ali, para sangrarem, morrer e se fecharem. Os ciclos. As vidas.

De volta ao cinema de gênero, mesmo escorregando a mão sem certos momentos “La Piel que Habito” choca, ao mesmo tempo em que comove. Assusta ao mesmo tempo em que profana, e nos leva a pensar: “quem somos nós, que habitamos estas peles que perambulam no mundo¿” 

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Sempre iniciantes

Opinião

Por Caroline Araújo

È assim que o amor nos faz sentir. Iniciantes. Muitas vezes, angustiados, aflitos, amedrontados. Ou tudo isso junto de uma vez. Acontece que não existe uma maneira centralista de ter controle de tudo para que as nossas escolhas e decisões sejam perfeitamente as que queremos, ou as que combinadas com o destino e o acaso supostamente seja aquilo que queremos.

Na verdade, o viver nos faz ser como locomotivas, sempre entre os trilhos e dormentes quentes, vibrando entre linhas paralelas que convergem em algum lugar no horizonte, que deve ser infinito, e a nós, locomotiva, cabe continuar a locomover como se isso nos fizesse encontrar perguntas e respostas e acima disso, conforto, no segundo seguinte que se chama futuro.

“Beginners – Todas as Formas de Amor”(2011) dirigido e roterizado por Mike Mills, consegue reunir 4 atores fantásticos – Ewan McGregor, no papel de Oliver Fields, um designer gráfico , incrível Christopher Plummer que interpreta o pai de Oliver – Hal, Mélanie Laurent que dá vida a Anna e Arthur o ator canino, claro!

Trabalhando a estória em dois tempos, antes e após a morte de Hal, de maneira simples e organizadora de puzzles, Mike segue desenhando imageticamente os desdobramentos dos relacionamentos, simples e cotidianamente. Assim como um dos ícones românticos do fim dos anos 90 “Antes do Sol nascer”, temos um americano e uma francesa que ao acaso, deixam-se encantar nas lagunas tristes que cada qual carrega em seus olhos perjuros.

Mas o trunfo real é Plummer que venceu o Oscar deste ano por essa atuação. Inspirado, leve, e ao mesmo tempo de uma densidade profunda. Após 40 anos de casado, aos 75 anos de idade, assumi ao filho e ao mundo ser gay. Não temos estigmas, muito menos bandeiras, Mike não faz defesa de situações. Apenas mostra, fatos e ligações, e o que, certas escolhas, empurradas por medos e pressões nos causam, e principalmente naqueles que nos circundam.

Bonito, tocante e fresco como borbulhas de champagne que explodem da mesma forma que fogos de artificio. Alias as imagens dos fogos, pontuais, são plásticas na efemeridade das memórias que elas emolduram dentro da vida de Oliver e Hal.

Uma preciosidade cinematográfica irretocável mesmo sendo um tanto lento em determinadas sequencia. Contudo, ele reflete exatamente a frase que utiliza no cartaz “This is What Love feels like” e na grande maioria de nós, também: Iniciantes. Sempre. Boa Sessão.

UMA GRATA SUPRESAS EM TEMPOS DE CÓLERA

Em cartaz

Por Caroline Araújo

Final dos anos 80. Brincos de crucifixo, cabelos espetados, jovens policiais que se disfarçam para combater o crime no seio adolescente. Muitos da geração X de hoje, perderam vários momentos frente a TV assistindo um dos maiores ícones televisivos dessa geração; a série americana feita pela FOX  “21 jump Street –Anjos da Lei”. Foi exatamente por meio do sucesso dessa série que um dos astros mais marcante e talentoso da atualidade começou a galgar o sucesso: Johnny Depp.

Então, com uma atmosfera nostálgica, quando você vai ao cinema e se depara com uma adaptação dessa série para o cinema, no primeiro momento uma lufada de #medo, abate-se. Mas ainda bem que, surpresas boas acontecem e não só de cachoeiras vivem nossos dias.

“21 jump Street –Anjos da Lei”(2012) chega aos cinemas nacionais trazendo um dos roteiros mais redondos e extremamente bem aplicados do ano. Leve, divertido, e acima disso, saudoso da série que o origina, o filme dirigido pelos quase estreantes Phil Lord e Chris Miller que recentemente mandaram muito bem na animação “Ta chovendo Hamburguer”  é um grande exemplo de que fazer o dever de casa é sucesso de critica e fãs e posteriori, muitos, mais muitos outros bons projetos caindo no colinho.

Schmidt (Jonah Hill) e Jenko (Channing Tatum) foram colegas de colégio. O primeiro fazia o Schmidt =nerd, sem vocação para os esportes. O Jenko =  ruim de notas, mas bom atleta. Eles voltam a se encontrar na academia de polícia, onde tornam-se amigos. Nas ruas, acabam cometendo mais erros que acertos, e por terem uma aparência jovem, são convocados para o novo programa da polícia, que esta reativando algumas divisões dos anos 80 (boa sacada) e terão de trabalhar disfarçados em uma escola secundária, para combater o tráfico de drogas.

Hill e Tatum conseguiram ter um equilíbrio de atuação, cada qual vestindo bem a pele de seus personagens. Com diálogos estruturados, várias sacadinhas 80’s, e interpretações inspiradas como a de Ice Cube, em menos de 15 minutos de filme rolando, você passa a para de analisar e relaxa e vai véi!

Com um humor caótico, cheio de referencias simples, clichês puros, bons atores, timing na medida, o filme, não figura como uma transição da séria para o cinema, mas sim, uma grata homenagem, fazendo referência ao seriado, mas construindo seu próprio caminho, atualizando o cenário para os dias de hoje, sem perder o inebriante da série do passado.

De maneira agradável, e tirando sarro para caramba, “21 Jump Street” consegue funcionar muito bem, faz rir (e muito) sem forçar escatologias. E Tatum. Ai! Colírio a parte! Amém!

 

A EFEMERIDADE DOS ARTIFICIOS

Em cartaz

POR Caroline Araújo

Parafraseando Baudelaire, ou uma canção de Marina Lima, a questão é que o cineasta Marcus Prado, escolhe; ou melhor mergulha na gravidade de uma onda lisérgica como se fosse seu debut no universo ficcional. Assim, como Baudelaire escrevera, a coragem para engolir é essencial. Neste caso, fundamental.

“Paraísos Artificias” (2012) é antes de mais nada um recorte, TORTO, um tanto pudico, mesmo tento coragem para explorar cenas libidinosas e excitantes, mas no fundo, uma maré rasa; um perfume de carnaval ao léu.Erika (Natallia Dill) é uma DJ, cuja amiga Lara (Lívia Bueno) é uma espécie de personagem dinâmico que retroalimenta a sua zona de conforto. Nando (Luca Bianchi) é um garoto que se deixa ir pelas “falastrices” de um amigo, Patrick , e assim, como dezenas de outros garotos espalhados pelo mundo, deixa esvanecer por entre seus dedos entorpecidos, o mundo, o todo, a vida.

De forma quase que plástica, a fotografia INSPIRADÍSSIMA de Lula Carvalho transcende o roteiro chumbrega, e consegue como que alquimicamente aliado a elegância das escolhas de Prado, transpassar, as sensações alucinógenas, eufóricas, eróticas, de uma maneira estupenda. Poucos, frisos, POUCOS filmes, conseguem essa sinestesia por meio das imagens.

Tirando Dill e Roney Vilela que interpreta um estereótipo era de aquárius que NÃO DEVERIA estar ali, os demais atores, novos, surpreendem, conseguem manter certa autenticidade, porém não progridem, e não por demérito interpretativo, mas por falta de densidade textual, ineficiência literária de um roteiro que se equivoca e acovarda-se, mesmo depois de ter escancarados pernas, bocas, gemidos e pupilas.

È inverossímil a estória de amor que possa surgir entre Erika e Nando. Não pelo destino que teima em coloca-los entre encontros e desencontros, mas porque não se reencontra no meio da multidão, um cara que você tem uma história maior e anterior, você lembrando claramente dele, e ele nem te reconhecendo ao certo, e você simplesmente não conta a verdade que te move desde então.

Com inicio bebendo em “Bicho de Sete cabeças”, e algumas passagens fazendo alusão a “Medo e Delírio” só que sem a sagacidade de Johnny Deep, o que resta de fato é, perceber que mesmo com algo precário textualmente, Prado fez um bom filme.

Impecável tecnicamente, com a montagem acompanhando a fotografia e a edição de som de forma impecável. Uma produção redonda, triangulando localidades e tempos distintos e não lineares. Aplausos.

Não levantando bandeira, apenas expondo os fatos, Marcus joga a batata quente sobre a questão do consumo de drogas sintéticas no nosso colo de um jeito proposital. Faça você sua consideração, não eu. Esse movimento nos coloca no centro de uma sociedade hipócrita, amoral, e sem escrúpulos. Ora, se para encarar a vida, você precisa engolir carvão, que porcaria de vida é essa¿ que maravilha de mundo é esse¿ acontece que é muito mais fácil e prazeroso jogar-se na montanha russa ilusória dessa artificialidade, que do burilar no ardor do sol, algo que dure mais do que um set de Trance.

Essa é a questão. Seja natural ou artificial, você precisa engolir. Alice fez isso, nós fazemos isso. Contudo, o filme de Prado poderia não apenas deixa a plateia entumecida (as cenas de sexo são lindas, lascívias e excitantes) como também, efêmera. O recorte, mesmo torto mostra uma juventude vazia, pouco producente e sem grandes perspectivas. De efemeridade já basta nossos congressistas em Brasília.

MARVEL: COMO FAZER UM BLOCKBUSTER de Conteúdo- Lesson ONE.

Em cartaz

Por CAROLINE ARAÚJO

Após alguns longos e tenebrosos invernos; onde a nevasca vinda do norte cheia de wargs e outras criaturas referendavam que os parcos blockbusters que aportavam nas salpicadas telas tupiniquins, eram acima, de tudo malfadas histórias que perdiam o tesão na mesma proporção que trilogias vazias vindas das literaturas juvenis surgiam como fênix de esperança cinéfila ao redor do globo, eis que, como em um bom script de trabalho bem feito e não menos preciso, heróis chegam para salvar os mocinhos ( nós público) e mostrar com quantos sopapos se faz uma aventura!

Floreios a parte, como forma de descontração verbal, após o estarrecimento de fã (obvio) o novo trabalho do até então estreante diretor EM CINEMA “Joss Whedon “The Avengers – Os Vingadores”(2012) que emplacou nas salas de cinema e arrecadou mais de 200 milhões de dólares em um final de semana, roubando o posto do bruxinho de cicatriz como a bilheteria de estreia mais rentável de todos os tempos, é uma ode a boas histórias com ação, porrada e acima disso, CONTEÚDO de peso que segura a trama.

Você não vai entrar para assistir um filme desses esperando encontrar a resposta do universo. Então, culturets a parte, o que Whedon fez, e com muito profissionalismo, e respeito aos fãs, foi, criar uma atmosfera dramática, na qual os personagens pudessem dançar entre si, inspirados na verve comics que os criou, e dialogar com seu publico, permitindo 142 minutos de puro entretenimento.

A tarefa não era nem um pouco fácil, claro. Na era em que estamos, onde tudo converge, onde a leitura de HQ’s perdeu espaço para outras mídias, demorou um pouco, mas a MARVEL rapidamente entendeu que para ela mesma continuar a publicar suas revistas, precisava compreender como levar seus personagens tanto para os fãs, quanto para novos fãs, de uma forma instigante, e fidelizadora.

Obvio que ai entra a telona. Como alcance de massa, o cinema torna-se o veiculo condutor, e à MARVEL coube o papel de estar à frente de si mesma e passar a produzir seus filmes. O resultado disso é que, os trabalhos executados por ela são, sem sombra de dúvidas, um apanhado das melhores produções de filmes inspirados em HQ’s, já feitos, excluindo a nova série de BATMAN, porque Nolan tornou-a acima de qualquer mortal, então não entra na contagem.

Hulk, Thor, Viúva Negra, Gavião Arqueiro, Homem de Ferro e Capitão América. A construção deste filme que chega agora nos cinemas, é uma mostra do que podemos denominar visão estratégica. Um trabalho de cirurgião iniciado com o primeiro filme da saga “Homem de ferro” e que ano passado mostrava as caras com dois lançamentos bombásticos “Thor” e “Capitão América”. Só que, outro ingrediente é responsável pelo sucesso: os atores. SIM, são astros, porém o brilhantismo de Robert Downey JR em vestir-se de Stark é inquestionável. Assim como Chris Evans personifica de maneira estupenda nosso capitão preferido. A escolha de cada peça para compor essa bela sinfonia de super heróis, mostra o carinho e dedicação de todos os envolvidos no certame de não se fazer MAIS UM FILME DE SUPER HERÓIS, mas sim, de se fazer O FILME. (aplausos)

Sem dicas sobre a história, pois quero ver todo mundo com pipoca nas poltronas Brasil a fora conferindo, resta dizer que, para além do trabalho magnifico de efeitos visuais, a estruturação do roteiro foi milimetricamente pensada, criando diálogos advindos do universo HQ, sem parecer piegas, sendo perfeitamente verossímil na boca dos atores. (pontos para MARVEL)

E, confabulando continuações ou não, o que sobra após a sessão, fora o êxtase da explosão do “hulk esmaga!”(literalmente) é que, sim, a indústria americana quando quer sabe e PODE fazer filmes arrasa quarteirões com conteúdo, pincelando valores como, dever, honra, amizade, pertencimento e lealdade, entre outros, e no fim o que falta no mundo hoje ( em todas as sociedades) é exatamente a exaltação desses princípios. O homem atual parece que acha careta ser legal com os outros, ou mesmo, deixar de ganhar sozinho para dividir com um grupo. Acontece que sozinho, é muito chato de se viver, basta lembrar do Wilson!

Em uma contemporaneidade de individualismos, um filme que evoca “uma liga” mesmo que de super heróis é uma pequena provocação e demonstração que juntos somos mais. JUNTOS, PODEMOS TUDO. Ai meus amigos, só tenho uma coisa a acrescentar: Que venham os exércitos, aqui é Easy CO!

Os: a sessão sem ser 3D é sempre a melhor pedida. Alias, essa febre de 3d já deu né.